Pesadelo financeiro made in China

Mais de um terço da dívida dos chineses está em instituições financeiras não-oficiais. São operações com custos e níveis de riscos desconhecidos, fora do controle das autoridades locais

Por O Dia

Estou cada dia mais convencido que, em economia, pelo menos, a tentação a se repetir erros do passado é irresistível. Por isto, quando escutei, nesta semana, uma autoridade chinesa reiterar o compromisso com uma aceleração da “liberalização financeira”, senti um arrepio. Parecia que estava vendo um capítulo de um tipo de novela que já acompanhei algumas vezes, com epílogos em geral absolutamente aterradores. No caso da China, hoje, esta novela pode terminar em pesadelo global.

Nos primeiros 50 anos do século passado, ocorreram sete crises financeiras de grandes proporções — sendo a mais significativa a de 1929. Desde então, a próxima seria a crise iniciada no México em 1982, que se estenderia por toda a America Latina. Iniciou-se assim um período “rico” em crises financeiras (18, se não me falha a memória), incluindo a crise financeira global da qual ainda hoje padecemos.

Há alguns fatores comuns a essas crises. Por exemplo, grande parte delas é iniciada por um processo acelerado de regulamentação — do mercado creditício e/ou da conta de capital. Trata-se da tal “liberalização financeira”, tratada por grande parte dos economistas como forma mais simples para aumentar a poupança, o investimento e o crescimento. De fato, ela aumenta a liberdade para os operadores no mercado e para os investidores. E essa maior liberdade vem, em geral, repleta de instrumentos inovadores e sofisticados, mas também de bolhas de ativos financeiros e não-financeiros — especialmente no setor imobiliário. Essas bolhas, por outro lado, tendem ainda a gerar decisões de gastos, dos consumidores e produtores, muitas vezes exorbitantes — e, consequemente, um crescimento, muitas vezes irresponsável, do endividamento, interno ou externo.

No caso da China, o processo iniciou-se timidamente, como uma das respostas à retração da demanda externa, imediatamente após o colapso do comércio em 2009. O governo procurava estimular a expansão do crédito permitindo o surgimento de esquemas “informais” de intermediação financeira — um conjunto de instituições que constituem o “sistema bancário sombra”. Grande parte da explosão de vendas, da produção, do mercado imobiliário e do investimento em infraestrutura na China esteve de alguma forma ligada a esse processo.

Como resultado, a dívida total das famílias, empresas e governos locais chineses subiu de um pouco mais de 100% do Produto Interno Bruto chinês para algo em torno de 270% em fins de 2014. Só isto já seria um sinal de potencial problema. Mas não para por aí: até recentemente, 100% da dívida era de propriedade dos bancos oficiais chineses. Agora, uma parcela superior a um terço está em instituições financeiras não-oficiais. Evidentemente, são operações com custos e níveis de riscos desconhecidos, e que estão fora do controle das autoridades econômicas locais. Não bastasse isso, um dos resultados do menor crescimento é uma tendência de queda dos preços de diversos projetos imobiliários e um aumento dos problemas de liquidez e solvência.

Assim como ocorreu no processo do caso coreano, muitos crêem na capacidade das autoridades chinesas em driblar a situação, e evitar uma crise financeira que pode transformar a desaceleração da economia chinesa num desastrado pouso forçado. Aqui abro um parêntesis para recordar um caso asiático de liberalização financeira que terminou mal: o da Coreia do Sul. Assim como os chineses até pouco tempo, as autoridades coreanas sempre tiveram um grande controle sobre o mercado bancário — sobre quem, a quem e a quanto emprestava. Nos anos 90 também promoveram uma “liberalização financeira”, como parte da sua estratégia de internacionalização de empresas e de ingresso na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE). A dívida interna e externa cresceu rapidamente, e assim a vulnerabilidade dos bancos e grandes empresas a oscilações do cambio. Em 1997, o governo, que muitos acreditavam ter suficiente poder de bala para promover um processo controlado de “liberalização”, não conseguiu evitar uma brutal crise financeira iniciada pelo aumento da volatilidade de fluxos e câmbio que atingiu toda a Ásia.

Piores do que aqueles que confiam cegamente na capacidade do governo chinês de controlar o problema são os que (pasmem!) propõem, como forma de evitar maiores problemas… mais liberalização financeira! Esses são irrecuperáveis! Mas o que preocupa é a possibilidade de que o discurso que escutei na semana passada seja uma indicação de que as autoridades chinesas tenham comprado essa solução bizarra para os problemas atuais do seu sistema financeiro. Se for o caso, podemos estar remando na direção de mais um pesadelo financeiro. E, desta vez, como grande parte da produção e demanda mundial, será made in China e acabará, como outros produtos chineses, na nossa casa.

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