Por bruno.dutra

A perspectiva positiva é dada pelo crescimento de 0,7% em julho e agosto últimos com relação aos respectivos meses anteriores. Ainda não é claro o alcance do avanço, mas deve ser observado que nos cinco meses anteriores a indústria só registrou resultados nulos ou negativos.

Certas ressalvas aos últimos resultados precisam ser feitas. Pelo menos em parte, podem ter correspondência em declínios anteriores desproporcionais em função do “efeito Copa”. É possível identificar ainda uma alta preponderância de três ramos para a formação do índice de agosto: máquinas e equipamentos, com aumento de 3,9%, indústria extrativa (2,4%), e derivados de petróleo (1,5%).

Por isso, deve ser relativizada a hipótese de que os últimos dados asseguram a volta do crescimento industrial. Reforça essa conclusão o fato de que, segundo as categorias de uso, a evolução em agosto deveu-se exclusivamente ao melhor desempenho de bens intermediários, enquanto todas as demais tiveram índice zero (bens de capital) ou negativo (bens de consumo durável e bens de consumo semidurável e não durável).

Também não se deve perder de vista que mesmo com as melhores taxas de crescimento, no acumulado de janeiro a agosto o progresso da indústria é muito ruim: queda de 3,1%, com destaque para bens de capital (-8,8%), denotando o forte retrocesso do investimento, e bens duráveis (-10,3%), por influência da crise da indústria automobilística. Isso significa dizer que podermos ter em 2014 a reprodução de um ano tão desfavorável à indústria quanto foi 2012, quando a produção recuou 3,2%.

É possível também traçar um panorama de mais longo prazo da trajetória do setor tomando o período pós crise mundial desencadeada em setembro de 2008. Nos seis anos que se passaram a produção recuou 4,4%, sob a liderança de bens de consumo duráveis (-20,2%) e bens de capital (-11,4%). Ou seja, a crise que se apresenta no Brasil não é de hoje e tem dimensão correspondente à crise mundial.

Certos condicionantes da baixa competitividade de nossa produção devido ao câmbio, à produtividade deficiente e altos custos sistêmicos se associaram a uma característica marcante do pós crise mundial, qual seja, a de que os mercados de produtos industriais se estreitaram, gerando uma expressiva capacidade excedente de produção desses bens. Daí uma concorrência global muito mais acirrada que seguidamente passou a contestar a produção brasileira, precipitando nossa crise. Isto afetou negativamente nossas exportações de manufaturados e ampliou a penetração de produtos industriais importados no mercado brasileiro.

Já tivemos oportunidade de observar nessa coluna que ao longo deste período muitas das cadeias de produção brasileiras perderam densidade – migraram gradativamente para a simples montagem de produtos importados – e ramos inteiros da indústria sofreram uma verdadeira devastação. Não deveria ser considerado fato corriqueiro ou “normal” uma queda tão acentuada como entre 15% a 30% da produção sofrida nesse período por dez setores de um conjunto de 22 ramos analisados. Esses casos de desindustrialização aguda reúnem os segmentos mais tradicionais de manufaturas como têxtil, vestuário e calçados, mas não só.

Inclui ainda ramos de bens intermediários muito prejudicados pela concorrência externa, como metalurgia (destaque para aço) e fabricação de produtos de metal. Envolve também setores tecnologicamente mais avançados, como bens de informática e produtos eletrônicos e óticos, além de bens de capital mecânicos e elétricos. A indústria automobilística é outro ramo incluído neste grupo. Casos de sucesso foram poucos: apenas 6, com destaque para alimentos e bebidas. Outros seis ramos tiveram crescimento meramente vegetativo.

Nada é fácil na questão industrial brasileira: a saída da recessão de curto prazo não está assegurada e muito menos há sinais que estamos recuperando condições para reverter a desindustrialização ocorrida no pós-crise mundial.

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