Por bruno.dutra

Foram dois meses de aumento da produção industrial e voltou o crescimento nas vendas reais do varejo. Ainda não se fazem presentes sintomas de que o principal determinante da estagnação da economia neste ano, qual seja, o declínio bastante acentuado do investimento, tenha alguma recuperação. Mas, pela primeira vez em muitos meses, o índice de confiança do empresário industrial, calculado pela FGV, acusou melhora de 1,8% em outubro. É a remoção do pessimismo empresarial que se instalou e rapidamente foi disseminado pela economia em 2014 o grande desafio que o governo terá pela frente, para que o investimento retorne e a economia possa crescer mais. Nesse ponto, a volta do aumento de juros é um balde de água fria

De fato, se tivermos em conta que o aumento de 0,25% na taxa Selic — que subiu de 11% para 11,25% ao ano — é indicativo de que outras elevações terão lugar proximamente, é possível que os sinais de melhora sejam removidos e o que é por enquanto um leve sintoma de alguma reativação econômica vá por água abaixo. A medida do BC foi justificada como necessária para fazer frente à desvalorização do real ocorrida nas últimas semanas e cujos efeitos podem chegar à inflação.

Em outro campo a medida pode abortar um movimento de mudança. Estamos falando do crédito, cujo desempenho em setembro foi retratado em um levantamento publicado ontem pela autoridade monetária. O registro é de crescimento expressivo das novas concessões de financiamentos pelo sistema financeiro. O aumento chegou a 9,4% com relação a setembro do ano passado, uma taxa que não se via no sistema creditício brasileiro desde o início do ano. Para as empresas foi mais modesto, 4,9%, mas significou a interrupção de sucessivas taxas negativas nos cinco meses anteriores. No crédito a pessoas físicas foi onde a evolução se deu de forma muito mais intensa, 14,0%, uma taxa que desde o início do ano não teve paralelo.

Como se sabe, uma parcela nada desprezível da retração do PIB brasileiro do primeiro semestre de 2014 deveu-se à parcimônia com que os bancos regularam seus créditos, em especial para as pessoas físicas. Era a contrapartida do receio de que a perspectiva de um ano difícil por conta das eleições e possível agravamento da situação do emprego e da renda da população viessem a afetar a capacidade de pagamento de dívidas por parte das famílias, aumentando a inadimplência. Os bancos públicos procuraram contrabalançar tais tendências, preponderantes, sobretudo, entre os bancos privados, mas sem o poder de neutralizar integralmente o movimento geral de queda. A relevância dos últimos dados a respeito do crédito no país é que eles mostram que o quadro adverso pode estar começando a mudar.

Um fator destacado para o revigoramento dos financiamentos na economia em setembro foram as maiores facilidades concedidas pelo governo no crédito consignado, o que contribuiu para o crédito pessoal. Este teve crescimento de 3,1%, mas, como convém sublinhar, neste resultado foi também importante o aumento das demais modalidades de crédito pessoal, que não o crédito consignado. Como cabe ainda observar, a melhora do crédito pessoal em setembro interrompeu praticamente seis meses de evolução negativa de novas concessões de financiamento. Outro indicativo de que a volta do dinamismo no crédito familiar não ficou restrito a uma determinada modalidade foi a forte retomada dos novos financiamentos para veículos, variação positiva de 10,9%, também dando por encerrado um período de praticamente seis meses de reduções sucessivas.

Completando o quadro de melhora, as taxas de juros caíram para empresas e pessoas físicas, os prazos dos financiamentos aumentaram e a inadimplência diminuiu, em especial no caso das famílias. As mudanças foram de pequena ordem, mas seu caráter geral confere solidez maior aos últimos resultados favoráveis do crédito.

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