Por diana.dantas

Os últimos dados do setor externo brasileiro delineiam tendências futuras que merecem atenção especial. O resultado de transações correntes no ano passado foi de déficit de US$ 91 bilhões, equivalente a 4,2% do PIB. O déficit foi se agravando nos últimos anos (2,4% do PIB em 2012 e 3,6% no ano seguinte) e seu nível atual acende uma luz amarela tendo em vista o desenlace temido por todos de crise cambial, caso algo mais grave ocorra no cenário internacional que afaste os fluxos internacionais de capital da economia brasileira e comprometa o seu financiamento externo. Níveis de desequilíbrio próximos ao atual já precipitaram crises, como a última que ocorreu no Brasil em 2002. No ano anterior, coincidentemente, as contas em transações correntes tinham alcançado os mesmos 4,2% do PIB de saldo negativo atual.

Nossa situação cambial difere das anteriores seja porque temos muito menor exposição cambial do setor público, seja porque dispomos de reservas em moeda forte em patamares muito altos, cerca de US$ 375 bilhões. De um jeito ou de outro, o quadro do setor externo brasileiro é de vulnerabilidade, o que, juntamente com fatores adicionais de fraqueza econômica associados à situação fiscal e ao crescimento, levou o Brasil a ser considerado “um dos cinco frágeis” na companhia de outras grandes economias emergentes, como a da Rússia.

Em alguma medida, a desvalorização do real será capaz de provocar uma melhora desse quadro, decorrente da provável queda dos gastos com viagens internacionais e com o envio de rendas de investimentos ao exterior. O tema é mais complexo na balança comercial. Em outras oportunidades, a queda do valor da moeda rebatia rapidamente nas importações, fazendo-as declinar e, com um pouco mais de defasagem no tempo, ampliava as exportações. Tais decorrências não só redimensionavam as contas externas, como também pavimentavam o caminho para uma recuperação da economia após o baque da crise externa que se traduzia em recessão doméstica.

Na atualidade há dúvidas sobre a intensidade e a brevidade de um processo como o que foi descrito. As importações penetraram mais profundamente na estrutura produtiva brasileira e podem não acusar a reação descrita. Por outro lado, o contexto mundial, a situação de vários de nossos parceiros comerciais e a própria perda de densidade de nossas cadeias de produção podem impedir ou pelo menos retardar em muito a reação ao câmbio, como, aliás, já vem ocorrendo.

De qualquer forma, a própria projeção do Banco Central para 2015, que prevê menor déficit em transações correntes (US$ 84 bilhões ou 3,8% do PIB), apoia-se integralmente em uma melhora do comércio exterior, que de um déficit de US$ 4 bilhões em 2014, alcançaria saldo de US$ 6 bilhões. Convém observar que a queda de preços internacionais de petróleo está na base dessa modesta melhora antecipada pela autoridade monetária.

Um ajuste mais profundo seria requerido para que o Brasil voltasse a ter posição externa confortável, mas nesse caso a desvalorização da moeda teria que ser maior, além de mais prolongada. Além disso, teria que vir associada a medidas de política industrial que lograssem fortalecer a capacidade exportadora de manufaturados brasileiros.

Sabemos que o pequeno déficit comercial do país no ano passado conjuga um elevado, porém declinante, saldo de produtos primários e déficits extraordinariamente elevados e que ainda apresentam tendência de elevação na área de produtos manufaturados. Daí ser tão necessário articular o plano macroeconômico com uma política industrial eficaz. Do contrário, tudo terá solução mais difícil na área do setor externo brasileiro.

É relevante observar que o Investimento Direto Estrangeiro (IDE) teve desempenho verdadeiramente extraordinário nos últimos anos. O IDE para o Brasil somou US$ 62,5 bilhões em 2014, o mesmo patamar dos três anos anteriores e muito acima de níveis próximos a US$ 45 bilhões de 2008 e 2010. Este foi um fator, portanto, de estabilização da situação externa, a despeito do seu crescente desequilíbrio. Como convém ainda observar, a indústria tem tido participação declinante no ingresso de novos investimentos estrangeiros diretos.

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