Cinquentinhas contam como sentem mais criativas e produtivas

'Agrupamos pessoas com o mesmo desejo e percebemos quantas histórias bacanas têm por aí para serem contadas', diz Angelina, que revela se sentir mais produtiva e criativa nesta fase da vida

Por O Dia

Rio - ‘Antes, todos os caminhos iam. Agora, todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas”. Nestes quatro versos do poema ‘Envelhecer’, Mario Quintana traz um ponto de vista de que a juventude abre novos caminhos, e o envelhecimento carrega um natural afastamento do mundo. A síntese é poética, mas já não espelha mais a grande maioria das mulheres de 50 anos ou mais.

“As transformações sociais que estamos atravessando vêm instituindo um novo lugar para a mulher. Dentro desse cenário, destacamos um número significativo de mulheres nesta fase, independentes e produtivas. Surge um novo perfil da mulher de mais idade, que estuda, trabalha e pode viver sozinha, protagonista de sua vida, diferente do perfil feminino de anos atrás, mais restrito à vida doméstica e às limitações sociais do envelhecimento”, esclarece a psicanalista Stella Olyntho, de 62 anos, que transita entre as perdas e ganhos com projetos para o futuro da fase.

Alzira Martins Ramos%2C dona de uma fábrica de bolos%3B A jornalista Angelina Nunes%2C uma das criadoras do site ‘Mulheres 50%2B’%2C Ivone Carvalho%2C doula e terapeuta holísticaBerg Silva/Ana Lúcia Araújo/

A jornalista Angelina Nunes tem 57 anos e quer mais. Ela e mais seis jornalistas criaram o site ‘Mulheres 50+’. Um projeto nascido da vontade de discutir as diversas transformações por que atravessam as mulheres depois dos 50 anos: do corpo às atitudes, dos relacionamentos ao trabalho. “Depois da minha demissão de um grande jornal no ano passado, quis fazer algo diferente. Tive oportunidades de ir para outra redação, mas não queria fazer mais do mesmo, embora tenha sido feliz fazendo.

“Agrupamos pessoas com o mesmo desejo e percebemos quantas histórias bacanas têm por aí para serem contadas”, diz Angelina, que revela se sentir mais produtiva e criativa nesta fase da vida: “Você seleciona. Não precisa mais provar nada. O site veio dessa vontade de compartilhar. Você volta a andar em grupos. Após os 50, estamos no topo da montanha, não sabemos o que vem pela frente, mas podemos escolher”, garante a jornalista.

Ivone Carvalho, 60 anos, começou uma nova carreira há cerca de dez anos. Ela foi secretária executiva de grandes empresas por 40 anos e, por meio de um casal de amigos que sonhava ter o filho em casa, começou a ter contato com seu atuais ofícios: é doula, dando suporte físico e emocional a outras mulheres antes, durante e após o parto, e também educadora pré-natal e terapeuta holística. “Não sinto o ‘peso’ da idade.

Sempre tive muita atenção com a minha saúde e agora colho os frutos de ter cuidado da alimentação, da prática frequente de exercícios e da prática espiritual”, diz Ivone, completando: “Abracei uma nova profissão e tudo isso me renova. Dá pressa de fazer as coisas essenciais, e tranquilidade pela certeza de estar fazendo algo de precioso nesta fase ‘terceira idade’ da minha vida”.

Fabricando vida

Há sete anos, Alzira Martins Ramos, 68 anos, havia acabado de perder sua mãe. Sem emprego, tinha que desocupar o apartamento onde morava com o marido e o filho na Tijuca. O único ganha-pão da família era a loja de material para pipoqueiros do marido, no Centro do Rio. “Fiquei desorientada. Um amigo me convenceu a fazer bolos pra vender no seu bar. De início, relutei porque nem dinheiro para os produtos eu tinha”. Em pouco tempo, ocupava parte da loja do marido, e logo abriu sua primeira loja. Hoje, são 190 casas franqueadas pelo Brasil, e a família vive do negócio. “Deus botou um pó de pirlimpimpim na massa. Sou realizada. Minha vida recomeçou aos 60”.


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