Em cena, a violência contra a mulher

Fernanda Nobre e Ester Jablonski abordam o tema na peça ‘O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha’, no Teatro Glaucio Gil

Por O Dia

Rio - Em cartaz no Teatro Glaucio Gil até 1º de maio, o espetáculo ‘O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha’ retrata um tema dos mais debatidos na atualidade: a violência contra a mulher. Em cena, as atrizes Fernanda Nobre e Ester Jablonski interpretam, respectivamente, Dorra, uma refugiada vinda da Bósnia, vítima de estupro, e Kate, uma psicoterapeuta americana que atua como voluntária.

A peça do romeno Matéi Visniec é baseada no relato das duas e tem como cenário a Bósnia do pós-guerra. “Nosso espetáculo fala sobre a violência contra as mulheres na guerra, sobre uma mulher que sofre um estupro coletivo. Mas a Bósnia é aqui, entre nós, onde mulheres são subjugadas, violentadas e estupradas a cada minuto”, desabafa Fernanda, que foi indicada ao Prêmio Shell pelo papel. “Me honra muito poder dar voz a estas mulheres. Me honra ser mulher e fazer parte dessa luta. Aprendi que não precisamos passar fisicamente por este trauma para levantar esta bandeira. Mexeu com uma mexeu com todas. Precisamos nos unir”.

Ester observa como a montagem atinge o público. “Se emocionam muito com a peça. É unânime o comentário de que aquilo que eles vivem ali conosco fica ecoando por dias e dias. O momento mais marcante foi o dia da estreia, que foi o mesmo dia em que a história da adolescente vítima de estupro coletivo ganhou o noticiário. A realidade acabou invadindo a cena”, revela.

No palco, sob a direção de Fernando Philbert, duas mulheres feridas que tentam reconstruir a percepção sobre si mesmas e sobre o mundo. Ester salienta a importância de debater amplamente o tema. “Fazer uma peça como essa é a possibilidade de falar, de fazer circular a palavra, e dessa forma tocar as pessoas com as vidas e dramas de outras. Fazer com que as pessoas possam se ver refletidas e solidárias. A violência é fruto da falência disso”, reflete.

E Fernanda acrescenta: “Ainda há dificuldade em reconhecer muitos dos assédios sofridos. Esse é um dos grandes pontos desta luta. Aprendemos diariamente que o que antes considerávamos normal, hoje é claramente visto como abuso e assédio. Mas este é um aprendizado doloroso que necessita de muita coragem. Esta é uma mudança de paradigmas para as próximas gerações, um momento histórico, que não tenho dúvidas que irá mudar o lugar de nós, mulheres, na sociedade”.

Para Fernanda, ainda há uma longa estrada de luta a ser percorrida. “Mas acho que a prioridade é as mulheres identificarem o machismo que não está só ao seu redor, mas em cada uma. Só assim vamos conseguir coletivamente uma mudança verdadeira”, diz.

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