Grupos como Israel Coral renovam o gospel e conquistam fãs

Unindo gospel e som black, bandas e artistas novos fazem canções para todo tipo de público, não apenas o cristão

Por O Dia

Rio - Eles querem ser ouvidos não só pelos evangélicos, mas por todas as pessoas. São artistas gospel e falam de Deus nas letras — mas são críticos com relação à música religiosa produzida atualmente e buscam aproximá-la de sons black, mais ligados à música norte-americana de louvor (os ‘negro spitiruals’). Ou levá-la para outros lados da cultura negra, como o rap, o reggae ou a canção soul. E já vêm colhendo frutos: o cantor Leonardo Gonçalves, 33, que gravou em junho seu primeiro DVD, ‘Princípio’ (a sair em setembro pela Sony), conquistou o terceiro lugar geral do iTunes com seu álbum anterior, ‘Princípio e Fim’ (2012). “A Sony me disse que muita gente criou conta lá só para poder comprar meu disco”, informa. 

No Rio e em São Paulo%2C grupos como Israel Coral renovam o gospel e conquistam fãs Paulo Araújo / Agência O Dia


Leonardo, que une gospel, pop, soul norte-americano e até MPB, viveu dos 2 aos 15 anos fora do Brasil, após a separação dos pais. “Morei nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Aos 11 anos, descobri o (conjunto vocal) Take 6, um marco na minha vida. Minha primeira memória musical é o lançamento do disco ‘Thriller’, de Michael Jackson (1983). No Brasil, fiz o dever de casa e ouvi Ed Motta, Ivan Lins, Djavan, Elis Regina, Rosa Passos, Joyce”, elenca ele, que é da Igreja Adventista e filho de pastor. Em ‘Princípio e Fim’ ganhou a participação de músicos estrangeiros, incluindo a Sinfônica de Praga (com direito a gravações na República Tcheca).

Entre os outros nomes que renovam o gospel, os cariocas do Israel Coral definem seu som com precisão. “É ‘negro spiritual’ mesmo, embora cada um venha com suas próprias influências, até da música clássica”, afirma a cantora Luciana Paulino, 25. Ela, ao lado de Edson Junior, Rafael Paulino, Luul Paulino e Elisa Custódio, louva o Senhor com os alegres corais de ‘Nosso General’ e ‘Festa da Paz’. A Palavra é a mesma dos chamados artistas “congregacionais” (os mais populares do estilo), mas há sofisticações. “Temos toques de jazz. Procuramos uma linha não-convencional. A maioria das músicas gospel é em lá, dó, mi, e tentamos fazer diferente”.

“Hoje há até MPB e bossa nova gospel! Nós não fazemos música só para crentes. Fazemos para todos. E para o cristão que gosta de black music e não encontra nada parecido com o som com o qual se identifica”, diz Tiago Vaz, 33, produtor e baixista do grupo carioca Acris Soul. Ele diz oferecer com seus amigos “assuntos do cotidiano nas letras, sem esquecer da Palavra de Deus”. O grupo tem nos vocais o pastor Ivan Vaz, 35. 

Salomão é autor do reggae antimaconha ‘Baseado em Quê%3F’Divulgação


O gospel e o secular já uniram forças em 2010 num show de Ed Motta, do qual Leonardo participou ao lado do cantor do grupo Raiz Coral, Renato Max. “Ele me convidou pelo Twitter! Cantamos ‘Isn’t She Lovely’, de Stevie Wonder, que é uma música neutra. Não é uma canção religiosa, embora cite Deus. Fiquei impressionado com o respeito do Ed pela religião”, afirma o cantor. “Ainda há preconceito separando o religioso do secular e até entre a música evangélica e a música católica. Dentro e fora do meio cristão existe música massificadora, que não põe você para pensar”, analisa.

O rap também é coisa sagrada

Autor de canções gravadas por Leonardo Gonçalves, o rapper gospel Michael Valente, 27, acaba de lançar o CD ‘Guerra Declarada’ — com produção, por sinal, de Tiago Vaz, da Acris Soul. Convertido no fim da adolescência, ele conheceu o rap por uma fita com músicas dos Racionais MCs. “Eles, Marcelo D2, MV Bill e Gabriel O Pensador são exemplos para os rappers”, enfileira, acrescentando que no Brasil faz falta uma revolução sonora no gospel. “Já ouvi pessoas dizendo que não curtem a música gospel por ela parecer repetitiva”, diz, citando os nomes de Thalles Roberto e Ton Carfi como dois grandes renovadores.

Reggae contra a maconha

Morador de Cabo Frio e frequentador de uma congregação evangélica desde os 11 anos, Salomão do Reggae, 33, manda na lata: “Nunca fui doidão, nunca usei drogas na vida”. O cantor teve uma banda de soul aos 17 anos e abraçou o reggae quando começou a conversar com “uma galera que estava na rua, de dread, tatuada. Comecei a evangelizá-los”. No repertório de Salomão, que grava o primeiro CD, estão músicas como o reggae antimaconha ‘Baseado em Quê?’ e ‘Menina Tatuada’. “Fazemos muitos trabalhos em centros de recuperação”.

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