Por tabata.uchoa
Obra de piano solo do compositor Julio Reis ganha disco e recital pelas mãos de João BittencourtDivulgação

Rio - A obra do pianista e compositor carioca Julio Reis (1863-1933) pairou por várias décadas, silenciosamente, na história do piano brasileiro. “Não há gravações disponíveis de suas músicas. Há um vídeo no YouTube de um tema dele executado pelo (flautista) Pattápio Silva (1880-1907). Mas a qualidade de som é horrível”, afirma o pianista João Bittencourt, 30 anos. Ele encarou o desafio de pesquisar partituras e reler sua obra no CD ‘João Bittencourt Apresenta Julio Reis’, que lança hoje no Teatro Carlos Gomes, às 19h30.

Júlio é um nome proscrito: mesmo tendo figurado nos catálogos de todas as editoras musicais e de ter sido também crítico musical, não está nos livros sobre música brasileira. Apesar de ter sido contemporâneo de Ernesto Nazareth (1863-1934), nunca se referiu ao colega em seus escritos. “É possível que eles tenham tido rixas. Ele era um crítico muito tradicionalista e ácido. Era contra o modernismo que havia na época”.

O trabalho de Julio chegou a João por um desafio — Fernando Molica, jornalista, colunista de O DIA e bisneto de Julio, escreveu o livro ‘O Inventário de Julio Reis’ e o convidou para tocar músicas do pianista na festa de lançamento. “Faltava uma semana para o evento! Não conhecia o Julio e adorei sua obra. Depois, surgiu a ideia de gravá-lo”, recorda.

“Quando o João falou do CD, achei que fosse promessa de carioca, tipo ‘vamos nos ver’, ‘passa lá em casa’. Pois foi uma grande surpresa!”, brinca Molica. “Meu avô morreu com 90 anos e passou a vida tentando recuperar a obra do pai. Esse repertório passou anos em silêncio”.

O disco parte de peças como ‘Cafageste’ (com “g”, na grafia antiga), ‘Lied’, ‘Passo Miúdo’ e chega em complexidades como ‘Odaléia’, com mais de oito minutos. Julio teve 200 obras publicadas. Algumas com nomes irônicos como ‘Quem Cala, Consente...’. “Para a música se destacar na loja de partituras, ela precisava ter um nome interessante”, afirma o pianista.

João ainda concilia outros projetos: toca sons black com a banda Os Coringas, acordeão no trio de forró Lorota Boa e música instrumental no grupo Água Viva. “Adoro Stevie Wonder, Jamiroquai, Michael Jackson”, enumera.

Você pode gostar