Por helio.almeida

Rio - O cineasta Cadu Barcellos, de 26 anos, cresceu pelas vielas apertadas do Complexo da Maré. De cima de uma laje, com vista panorâmica do local, mostra onde ele e vários amigos da comunidade tiveram o primeiro contato com a arte. “Era naquele prédio ali que eu ensaiava com o Corpo de Dança da Maré”, conta, apontando para o lugar onde iniciou o caminho para transformá-lo em um dos personagens do documentário ‘A Alma da Gente’, de Helena Solberg e David Meyer, em cartaz desde sexta-feira.

Cineasta vira personagem de filme sobre grupo de dança da favelaFernando Souza

Se hoje Cadu tem no currículo filmes realizados ao lado de cineastas consagrados como Cacá Diegues, com quem trabalhou na direção de um dos episódios de ‘5 X Favela — Agora Por Nós Mesmos’ e ‘5 X Pacificação’, ele agradece ao Corpo de Dança da Maré. “Tinha consciência de que o meu futuro não era a dança. Mas, quando vi a Helena e o David com aquelas câmeras e equipamentos de som, alguma coisa mexeu comigo”, confessa o morador da Maré, que hoje se define como cineasta, embora também escreva e cante na banda Funk Club, além de ser um dos organizadores da produtora Palafita, que cuida de artistas da comunidade onde viveW.

Os registros feitos por Helena e David dos 60 jovens que integravam o grupo do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, na Maré, ficaram na gaveta por muito tempo. Mas, em 2010, os diretores decidiram documentar o set de ‘5 X Favela — Agora por Nós Mesmos’. E adivinha quem encontram por lá? Cadu Barcellos. “Foi mais ou menos a partir daí que sentimos que a passagem do tempo só havia enriquecido o projeto”, diz Helena.

O encontro reanimou a dupla de diretores. Curiosos, eles investigaram por onde andavam os jovens que conheceram no corpo de dança e conseguiram concluir a história iniciada há uma década atrás. De todos eles, apenas três continuam envolvidos com a dança.

“Se você pegar 20 jovens do Leblon e 20 da Maré, a maioria vai dizer que não se tornou o que queria. Mas é claro que muita gente quis seguir a dança, ou tinha outro sonho que precisou interromper para poder sobreviver e pagar as contas”, pondera Cadu.

O ex-dançarino faz questão de ressaltar que o filme não se trata do cara que deu certo ou não, mas sim sobre as escolhas que tomamos na vida. “Entrei para o Observatório de Favelas, fiz cursos lá, conheci muita gente e fui articulando uma rede. Mas é difícil viver de arte no Brasil. Agora estou bem, daqui a pouco fico três meses sem gravar e preciso me reinventar. A vida bate na porta, mas o feijão tem que estar na mesa”.

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