Por tabata.uchoa

Rio - O diabo pode até não ser o “pai do rock”, como pregava Raul Seixas, mas o ocultismo ainda é um tema bastante explorado na música, especialmente no rock e no heavy metal. O assunto despertou atenções quando a banda sueca Ghost B.C. (liderada por um estranhíssimo — e, vá lá, simpático — Papa Satânico) veio tocar no Rock in Rio. Retorna numa data muito especial: 13 de outubro, domingo que vem, quando a histórica banda britânica Black Sabbath vem ao Rio a bordo de seu novo disco, intitulado ‘13’. E ganha espaço nos nomes, fotos e conceitos de muitas bandas, de som pesado ou não.

“Não vi Ghost e tenho preguiça para rock. Vi uns comentários religiosamente histéricos sobre o show por aí e fiquei com inveja”, brinca Munha da 7, baixista da banda brasiliense Satanique Samba Trio, mais envolvida com samba, ritmos do Nordeste e jazz do que com som pesado. “Nem conheço bem Black Sabbath, nem veria a banda”, diz.

Black Sabbath%3A da esq. para a dir.%2C Tony%2C Ozzy e GeezerDivulgação

O grupo lança o disco ‘Bad Trip Simulator 3’ e tem canções com nomes como ‘Gafieira Bad Vibe’ e ‘Salve Satã e Ponto Final’. Não são temas que os sete músicos (não, a banda não é um trio) levem a sério. “Não temos nada a ver com magia negra. O termo satã é ‘adversário’ em hebraico. A ideia foi criar uma força de contestação na MPB. Mas ninguém quer dar oportunidade a uma banda com um nome desses”.

“O ser humano precisa ter contato com o que não pode explicar. Só que transforma isso em verdades absolutas”, afirma Josh S., vocalista e guitarrista da banda piauiense Bode Preto, que diz fazer “metal obscuro”. No mesmo dia do show carioca do Black Sabbath, o grupo solta o EP de vinil ‘Dark Night’.

O baterista do grupo, Adelson Souza, revela que mexer com certos temas atrai galhos. “Nosso álbum atrasou porque a fábrica tinha donos religiosos. Sabotaram a capa”, conta ele, que já dividiu o palco com o Ghost B.C. num festival, com outra banda sua. “Quando tocava no Garage (biboca underground carioca dos anos 90), dormia lá e ouvia um barulho forte de correntes. Mas não acredito em nada”.

O Rio é pródigo em bandas de black metal (que abordam diretamente temas anticristãos) como Enterro, The Unhaligast e Malleus. “Nossa mensagem é que as pessoas não abaixem a cabeça para nenhum tipo de religião como sinal de submissão ou comodismo. Que elas pensem por conta própria”, diz o baixista do Malleus, Aghaven Lord.

O Bemônio, outra formação do Rio, vem com temática sonora assustadora no disco ‘Santo’ (que traz cantos gregorianos e nomes de santos nos títulos das músicas). “Eu sou católico”, diz o tecladista Paulo Caetano, isolando o lado ‘black’ apenas no trocadilho do nome. “Seguimos o que vimos como perturbador e criamos em cima. E, sim, muita gente fica com medo nos nossos shows”.

Cavaleiros do Heavy Metal

O Black Sabbath é uma banda de heavy metal e de rock clássico. Ponto. Nada a ver com o black metal e com bandas extremas como os noruegueses Burzum e Mayhem. O grupo se apresenta na Praça da Apoteose no próximo domingo, com três integrantes originais (Ozzy Osbourne, o guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler). Lança aqui o novo álbum de inéditas, ‘13’. A editora Universo dos Livros aproveita para dar uma geral na carreira do grupo na biografia ‘Black Sabbath’ (184 págs., R$ 34,90).

Que tudo vá pro inferno

O “coisa ruim” é tema de música há décadas — Robert Johnson falou dele em ‘Me And The Devil Blues’ nos anos 30. Nos anos 50, um maluco chamado Screamin’ Jay Hawkins falava de pragas no hit ‘I Put A Spell On You’.

Na mesma época em que o Black Sabbath se lançava ao mercado, surgiram grupos bizarros e escandalosamente satanistas como Coven e Black Widow. Bandas como Iron Maiden (do hit ‘The Number Of The Beast’) foram atualizando o tema. Em 1982, o Venom deu início ao lado mais mórbido da força com o álbum ‘Black Metal’ (1982), que gerou filhotes no mundo todo — inclusive no Brasil, com a banda mineira Sarcófago, cujo disco de estreia, ‘I.N.R.I.’ (1987), acaba de ser relançado em vinil.

Vale dizer: falar sobre um assunto é uma coisa, acreditar nele ou gostar dele é outra coisa. Tom Araya, vocalista do Slayer (que esteve também no Rock in Rio e canta músicas como ‘God Hates Us All’), é católico. “Acredito em Deus e ouço bandas satanistas. E todo mundo sabe que creio num poder superior. Isolo as letras e não as levo a sério”, diz o religioso Max Cavalera, ex-Sepultura, hoje no Soulfly.

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