Vinicius de Moraes: Um homem sem preconceitos

O poeta separou-se várias vezes quando isso ainda não era comum, ‘cantou’ o candomblé e deu voz ao morro

Por O Dia

Rio - Um homem que viveu plenamente, sem amarras. Vinicius de Moraes, celebrado em uma série de reportagens no DIA até sábado, quando se comemora seu centenário, levou uma vida livre de preconceitos e quebrou muitas barreiras. Ele se separou diversas vezes, numa época em que não só isso era um escândalo, como ainda não existia divórcio no Brasil. Escreveu uma peça que se passava numa favela carioca, além de ter escrito canções sobre o morro e a pobreza. Lançou um disco com músicas sobre os orixás quando o candomblé era alvo de muito preconceito no Brasil. 

Vinicius com o escritor Jorge Amado e sua mulher, Zélia Gattai, em um terreiro de candomblé em Salvador, em 1972: religião era estigmatizadaDivulgação


“Ele era uma pessoa muito especial, principalmente pelo humanismo. Nunca fez diferença entre adulto, criança,pobre, rico...”, lembra a cantora Miucha. O poeta e letrista Geraldo Carneiro, autor de ‘Vinicius de Moraes por Geraldo Carneiro’ (ed. Brasiliense), reitera: “Ele não tinha preconceito em relação a nada, isso me provocava até uma certa estranheza”, lembra ele.

“Um homem generoso, sempre atento aos detalhes que aproximam e ajudam a amenizar o cotidiano árido”, elogia o amigo Toquinho, parceiro musical do Poetinha por 11 anos.

O disco ‘Os Afro-Sambas’, de 1966, lançado com Baden Powell, mergulhou sem medo no universo do candomblé, religião estigmatizada no Brasil até pouco tempo atrás. “Era muito difícil falar de orixá, porque existia muito preconceito. O Vinicius fez isso com todo o bom gosto, e, assim, outras classes sociais tomaram conhecimento daquilo que o Baden chamava de ‘a fé brasileira’”, lembra Silvia Powell, viúva do músico e compositor.

O poeta estava atento ao brasileiro negro e pobre, e, assim transformou o mito grego de Orfeu em uma tragédia passada numa favela carioca, ‘Orfeu da Conceição’. Com música de Tom Jobim e cenário de Oscar Niemeyer, a peça foi encenada em 1956. Pela primeira vez um elenco negro ocupou o palco do Theatro Municipal. A história foi adaptada para o cinema por Marcel Camus e virou ‘Orfeu Negro’, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

Com a então mulher Lila Bôscoli%2C Oscar Niemeyer (E) e Tom JobimDivulgação


“Eu desde sempre soube que o morro guardava muitos tesouros, porque aprendi com o meu pai. Ele tinha as atenções voltadas para os artistas de lá”, conta Maria Gurjão de Moraes, filha de Vinicius com Cristina Gurjão. Em sua última entrevista, em 1979, Vinicius deixou clara sua preocupação com a pobreza: disse que gostaria de ver “a realização, ou pelo menos um arremedo de realização, de uma organização social mais justa, com uma melhor distribuição da riqueza” no Brasil.

PROGRAMAÇÃO

O MUSEU da Imagem e do Som recebe amanhã o seminário ‘Vinicius Centenário: Poeta, Compositor, Homem do Mundo’. Serão três mesas e Geraldo Carneiro, Miucha e Carlos Lyra estão entre os participantes. Praça Luiz Souza Dantas 1, Praça Quinze. A partir das 10h. Grátis.

O CENTRO Cultural Banco do Brasil começa quinta-feira a série de shows ‘Vinicius, o Poeta do Encontro’, que vai até dia 27. Quinta e sexta, às 21h, Zé Paulo Becker e Marcos Sacramento interpretam o disco ‘Os Afro-Sambas’. R$ 10.

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