Rio - Mais uma polêmica ‘cabeluda’ da novela ‘Amor à Vida’ está ganhando repercussão nas redes sociais. Depois de querer passar a tesoura na cabeleira ruiva da jovem Nicole (Marina Ruy Barbosa), sem sucesso, Walcyr Carrasco, autor da trama das 21h, agora tem outro alvo: o cabelo black power do personagem Jayminho (Kaiky Gonzaga), filho adotivo de Niko (Thiago Fragoso) e Eron (Marcello Antony).
Walcyr chegou a colocar um adendo em um dos capítulos, dizendo: “Atenção, amigos da caracterização e figurino. Estas cenas se destinam a mudar a composição de Jayminho. Tenho ouvido de muita gente críticas muito pesadas e rejeição, principalmente ao cabelo dele. Quero um personagem bem aceito”. O assunto gerou discussões, e muitas pessoas acusaram o autor de ser preconceituoso.
Mãe adotiva de Gabriel, de 5 anos, Astrid Fontenelle criticou Walcyr em seu programa ‘Saia Justa’, do canal GNT, na semana passada. “Quero acreditar que este país mudou. Não acredito que Walcyr Carrasco mandou cortar o cabelo do menino. Ele alegou que isso aconteceria na vida real com uma família que tem dinheiro. Quero dizer que eu tenho dinheiro e um filho negro e não corto o cabelo dele por causa disso”, disse a apresentadora.
Antes da declaração de Astrid, Walcyr já havia se posicionado sobre o debate em seu Twitter e garantiu que sua luta na novela é justamente contra a discriminação: “Bem, se não estão felizes com o que estou fazendo contra o preconceito, tiro o personagem da novela e acaba a polêmica. Não é porque alguém é negro que é obrigado a usar black power. Isso é preconceito ao contrário! Só pedi para mudar o visual de Jayminho porque ele foi adotado por alguém de dinheiro. É o que aconteceria na vida real. Mas eu concordo com uma coisa: essa novela tem problema de cabelo! Teve o cabelo da Marina, depois o do Ninho e agora o do menino!”.
Para a diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), Elisa Narkin Nascimento, a opção de mudar as característica de Jayminho sinaliza um pensamento racista. “Esse tipo de atitude pode não ser explícita e consciente. As pessoas nem enxergam que estão tendo uma atitude racista. Mas o fato de cortar o cabelo da criança, mesmo que inconscientemente, reproduz esses padrões racistas que existem. Não podemos dizer que tal ato está isento de racismo”, analisa Elisa.
“Parte do imaginário formado pelo racismo é a rejeição do fenótipo de origem africana. Quanto mais a pele é escura e o cabelo for crespo, maior a rejeição. De forma bastante preconceituosa, essas características são associadas à sujeira, doença e feiura. Também são tidas como um desvio daquilo do que seria o normal (identificação com o fenótipo europeu)”, acrescenta.
Os fios de cabelos podem até protagonizar as polêmicas na novela, mas não são os únicos. No início da trama, médicos e enfermeiros questionaram a forma como Walcyr estereotipa os profissionais no hospital San Magno. “Em todas as profissões há gente boa e ruim. Por que não posso criar uma novela sobre as más enfermeiras?”, escreveu o autor em um artigo publicado em sua página oficial na internet.
A enfermeira Juliana Nogueira discorda de Walcyr e diz que ele faz de tudo para ‘causar’. “Parece que as enfermeiras vivem fazendo procedimentos errados e que somos todas periguetes, que ficamos de pegação no local de trabalho”, comentou ela, que tem 29 anos.
As gordinhas também têm sofrido com as frases, carregadas de insultos, proferidas à personagem Perséfone (Fabiana Karla) na ficção. Rodrigo Andrade, que vive Daniel, marido de Perséfone, não acha que os textos sejam tão agressivos. “Não acho irreal, não. O preconceito não é pelo fato de a Perséfone ser gorda, é preocupação dos pais dele, de verem o filho sofrer. Isso eu acho muito real. Os pais, de uma maneira inconsciente, sempre tentam proteger os filhos”, defende o ator.