Por thiago.antunes

Rio - Autor da biografia ‘As Vidas de Chico Xavier’, o jornalista e escritor Marcel Souto Maior sentia falta de um relato mais humanizado sobre o pai do espiritismo, o francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido como Allan Kardec (1804-1869). É o que ele afirma ter feito em ‘Kardec — A Biografia’ (ed. Record, 332 págs., R$ 39). Pela primeira vez, um livro escrito por um autor brasileiro fala das contradições do pesquisador, que veio do meio científico e passou a pesquisar fenômenos como as mesas que levitavam e giravam em salões de Paris, Londres e Nova York no século 19. E das reações violentas da Igreja Católica a seus livros, que chegaram a ser queimados em Barcelona em 1861.

“Foi um episódio que acabou divulgando mais ainda o espiritismo”, lembra Marcel. Ele fez viagens a Paris, leu no original o ‘Livro dos Espíritos’, escrito pelo francês, e manuseou exemplares da publicação dirigida pelo pesquisador, ‘Revista Espírita’. “Há uma bio do Kardec escrita por brasileiros, mas é um livro espírita. Os autores nem registram os ataques da Igreja Católica. No livro, falam que nem vale detalhar o assunto. Fui tentando preencher lacunas”, diz.

Marcel Souto Maior garante que livro sobre Kardec tem uma abordagem jornalística%2C e não espíritaDivulgação

Ao trabalhar na vida de Chico Xavier — que virou livro e filme com Nelson Xavier no papel —, Marcel foi acumulando um material enorme sobre Kardec. “Foi lendo ‘O Livro dos Médiuns’, do Allan Kardec, que Chico entendeu as visões tidas por ele desde criança. Ele havia crescido sendo chamado de louco por sua família. O livro foi seu manual de instruções”, afirma, lembrando o quanto o cientista Hippolyte resistiu até focar os fenômenos espíritas. Aos 53 anos, adotou o pseudônimo Allan Kardec — por indicação de um guia espiritual — e passou a divulgar a doutrina. Às vezes, apaixonadamente, chegando a afirmar que se tratava da “única verdade” que todos precisavam conhecer.

“Como cientista, ele dizia que era preciso ver com os próprios olhos. Kardec passou a vida dividido entre fé e razão”, recorda Marcel. “Ao divulgar a doutrina, teve decepções com falsos médiuns e com a exploração dos fenômenos. Concluiu que o lema do espiritismo seria ‘fora da caridade não há salvação’”.

Marcel diz não ter religião e que, por isso, fez um livro neutro. “Se eu me convertesse, seria como o comentarista esportivo que torce para o Flamengo”, brinca. “Gosto do espiritismo pelo bem que ele faz e pela questão da caridade, da solidariedade. Me preocupa quando ele entra no campo dos fenômenos. Nem sempre dá para saber o que está por trás da materialização dos espíritos”, analisa. 

A queima dos livros de Kardec em Barcelona é um dos pontos mais chocantes de ‘Kardec — A Biografia’. “Foi um resquício de inquisição. Kardec brinca que alguns anos antes ele é que teria ido para a fogueira. Qualquer censura, inclusive essa que Caetano Veloso e Chico Buarque defendem agora, é trágica”, opina Souto Maior.

Mestre dos espíritas chega aos cinemas em 2014

Tem um filme sobre a vida de Kardec, baseado no livro de Marcel, vindo por aí. A direção é de Wagner de Assis, responsável pela adaptação para o cinema de ‘Nosso Lar’, obra psicografada por Chico Xavier. O roteiro é de L.G. Bayão e do próprio Wagner, que acompanhou bastante o trabalho de Marcel durante a feitura de ‘Kardec — A Biografia’. “Ele é humilde e imparcial todo o tempo. Não quis ser o ‘dono da história’ de Kardec. Vi o quanto ele trata a história com respeito. Poucos têm a coragem que ele tem, de lidar com a pureza dos fatos”, defende Assis.

O filme é uma produção da Cinética Filmes (de Wagner) com a Conspiração (de longas como
‘2 Filhos de Francisco’, de Breno Silveira) e está programado para o aniversário de 210 anos de Kardec, em outubro de 2014. “Não fizemos convite oficial para o Tony Ramos, mas gostaria muito que ele fizesse o papel de Allan Kardec”, torce Marcel.

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