Por nara.boechat
Publicado 10/12/2013 21:30 | Atualizado 11/12/2013 14:51

Rio - Uma certa banda de Liverpool faz, até hoje, o coração de uma das filhas do Poetinha bater mais rápido. Georgiana de Moraes, 60 anos, que acaba de homenagear o pai, Vinicius de Moraes, organizando o CD ‘A Vida Tem Sempre Razão’ (com vários intérpretes relendo sua obra, em seu centenário), era beatlemaníaca a ponto de assinar nas provas do colégio como Georgiana McCartney. E o que será que o paizão poeta achava disso?

Georgiana de Moraes organiza CD com 17 regravações de ViniciusAlessandro Costa / Agência O Dia

“O Vinicius escreveu uma crônica no jornal ‘Última Hora’ em que ele dizia para mim: ‘Que você seja jovem e ouça música jovem, tudo bem. Mas que você troque meu sobrenome pelo desse beatle com boca de chupar ovo, não dá’”, lembra Georgiana, encantada. “Acho que ele ficava com ciúme, achando que podia ficar para trás. Mas os Beatles também são clássicos, como ele, Tom... Imagina se eu ouvisse música ruim?”

‘A Vida Tem Sempre Razão’, em 17 músicas, faz um apanhado de clássicos de Vinicius com intérpretes como Chico Buarque (‘O Amor em Paz’), Edu Lobo (‘Canto Triste’), Arlindo Cruz e Moyseis Marques (um pot-pourri com ‘Consolação’, ‘Formosa’ e ‘Pra Que Chorar’), Ana Carolina (‘Eu Sei Que Vou Te Amar’), Seu Jorge (‘Canto de Ossanha’), Joyce Moreno e Roberta Sá (‘A Felicidade’), Toquinho (a faixa-título) e Maria Creuza (‘Onde Anda Você’). Fagner traz com uma pérola menos conhecida do Poetinha, ‘Chora Coração’. “Escuto essa música desde 1973 e fiquei muito emocionado em cantá-la”, recorda. João Bosco, que chegou a ser parceiro de Vinicius quando bem jovem, preferiu reler, só com voz e violão, ‘Medo de Amar’, que tem tocado em shows. “Vinicius significa pra mim mais de 40 anos de carreira. Acho que fiz o dever de casa que ele me passou durante toda a vida”, crê.

A própria Georgiana, que tem rodado o país participando de um show do Quarteto em Cy em homenagem ao centenário do pai, canta uma pérola obscura do poeta, ‘Cartão de Visita’. “Como minha parte foi gravada em vídeo, achei que ficaria como bônus numa versão em DVD. Foi uma ousadia”, brinca. Com o produtor José Milton no comando (os arranjos são de Cristóvão Bastos, que trabalha costumeiramente com Chico Buarque), o disco foi feito em três meses.

“Levávamos ideias para todos os nomes, mas cada um vinha com uma sugestão. Não sei se pecamos, já que o disco não tem um conceito, tipo ‘novos artistas gravam Vinicius’, mas o grande conceito foi a beleza. Muitas músicas foram tocadas de uma forma que as torna mais lindas.” De bônus, dois grandes sucessos: ‘Pela Luz dos Olhos Teus’, composta apenas por Vinicius, na gravação de Tom Jobim e Miúcha feita em 1977. E ‘Garota de Ipanema’, de Tom e Vinicius, gravada em 2000 por Emilio Santiago, morto em março. “Ele precisava estar no disco.”

Vinicius brincava com o fato da filha ser beatlemaníaca. ‘Eu assinava Georgiana McCartney’%2C ela lembraArquivo

Terceira dos cinco filhos de Vinicius, filha de Lila Bôscoli, Georgiana foi percussionista do pai a partir dos anos 70. “Nem sou um grande talento da percussão, mas sempre tive ritmo. Fui meio na cara de pau”, lembra ela, que viu o poeta ser censurado no palco, em Brasília, em 1973. “Meu pai recitou um poema que falava das mortes dos Pablos Picasso, Casals e Neruda, e encerrava com um ‘vá para a p... que o pariu’. Foi proibido de voltar ao palco.” Em 1977, estava na banda quando Vinicius, Miúcha, Tom Jobim e Toquinho fizeram uma temporada de quase oito meses no Canecão. “Desde os anos 60 o Tom e o Vinicius não apareciam juntos no palco. Foi um marco.”

Hoje, Georgiana trabalha como psicanalista. “Foi muito difícil lidar com o peso de ser filha do meu pai. A psicologia ajudou nisso. O Vinicius era uma pessoa muito querida por todos. Mas hoje vejo o lado positivo das oportunidades que tive por ser sua filha”, conta ela, que vem conciliando o consultório com o trabalho na produtora VM, onde cuida da obra do poeta, ao lado dos irmãos.

“Apesar de alguns de nós terem mães diferentes, somos como quaisquer irmãos. Não sei se pesou o entendimento da importância do que é ser filho do Vinicius, da responsabilidade de cuidar dessa obra. A Julia, filha do Pedro (único filho homem do Poetinha) também tem participado do escritório e isso tem nos deixado muito felizes.”

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