Por daniela.lima

Rio - As dificuldades foram muitas. Julio Casares não teve o apoio do pai nem dos amigos quando, aos 8 anos de idade, decidiu que queria ser bailarino. Mas nem o preconceito, nem as dificuldades financeiras foram suficientes para fazer o jovem de Miguel Pereira desistir de seu sonho. 

Julio Casares aprovado no balé BolshoiDivulgação


“A minha mãe trabalhava como artista de rua e eu ficava no colégio só no período da manhã. Para eu não ficar em casa sozinho, ela me colocou no ‘Ação e Cidadania’, um projeto que oferecia aulas de capoeira, teatro, fotografia e dança. Eu fiz por um tempo e, depois, ela perguntou de qual atividade eu gostava mais. Aí eu disse que era do balé”, lembra.

A mãe, a educadora Ana Paula Casares, se assustou com o desejo do filho, mas não hesitou em ajudá-lo a desenvolver o que ela chama de dom. “Esse menino sempre me surpreendeu. Ele é muito batalhador. Quando queria alguma coisa, ele lutava e se dedicava até conseguir. Eu sabia que não seria diferente com o balé. Então, fiz a minha parte. Corri atrás de lugares onde ele pudesse estudar”, conta ela.

E foi com a ajuda da mãe que Julio entrou para o Projeto Dançarte e, três anos depois, já estava na conceituada Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. “Eu tive a minha base no Dançarte. Eles me prepararam, confiaram em mim e me ajudaram a chegar onde eu cheguei. A minha primeira sapatilha foi esta ONG que deu. O Dançarte é a minha segunda casa”, declara.
Marcelle Rollemberg, professora do projeto, é só elogios ao jovem. “Fui a primeira professora dele e tenho muito orgulho de dizer que esse menino passou pelas minhas mãos. O Julio sempre foi muito interessado. Desde o início, ficou claro que ele tinha talento. Eu vejo um futuro lindo para ele.”

Mas nem tudo foi fácil na trajetória do jovem de 16 anos. Mesmo muito seguro de sua orientação sexual, Julio teve que aprender a lidar com as dúvidas levantadas por seus colegas de escola. “Era insuportável. Eu tinha namorada, andava de mãos dadas com ela, mas não adiantava: só por eu ser bailarino, eles se achavam no direito de me tachar como gay. Em alguns momentos, eu até pensei em desistir da dança”, revela.

Outro fator que também pesava na decisão de abandonar o balé era a opinião do pai, Helio Dias. “Ele sempre foi contra, achava que eu jamais conseguiria me manter com a minha arte. Por pressão dele, eu acabei me inscrevendo no curso preparatório para a Escola Militar, mas não durou muito. Descobri que tinha uma academia de balé bem pertinho de onde era o curso. Na mesma hora, me matriculei e desisti do preparatório. Um dia, o meu pai ainda vai me ver dançando e vai confiar na minha arte”, sonha ele.

E como Julio é um jovem que gosta de desafios, assim que ficou sabendo que a Bolshoi de Joinville, única filial da escola de balé russa no mundo inteiro, tinha aberto novas vagas, ele resolveu arriscar. “Fiz as audições e fui o único menino a chegar até a final. Fiquei cinco dias em Joinville, com dinheiro de amigos e familiares. Quando saiu o resultado e eu vi que tinha passado, chorei muito, por mim e por todos que acreditaram e ajudaram a concretizar esse sonho”, conta.

De malas prontas para passar ao menos três anos longe de casa, Julio ainda precisa de ajuda para colocar o sonho em prática. “O Bolshoi me deu uma bolsa integral, mas eu preciso de dinheiro para me manter na cidade. Fizemos as contas e vai dar em torno de R$ 1.000 por mês. As aulas começam no dia 10 de fevereiro e, até agora, de certo mesmo, só a passagem”, revela.

Confiante, a mãe, Ana Paula, garante que, para ajudar o filho, voltará a fazer faxina, se for preciso. “Estou buscando ajuda em todos os cantos, fazendo rifa, trabalhando muito. E, se você batalha, você consegue o que quer. A história do Julio ainda vai inspirar muitos jovens”, acredita.

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