Por daniela.lima
Publicado 14/01/2014 22:43 | Atualizado 14/01/2014 22:47

Rio - Imagens da repressão militar à efervescência cultural que agitaram uma das épocas mais emblemáticas da história do Brasil: dois opostos eternizados pelos cliques de um dos maiores nomes do fotojornalismo. ‘Tempos de Chumbo, Tempos de Bossa: Os Anos 60 Pelas Lentes de Evandro Teixeira’ é o título da mostra que o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) abriga de hoje até 27 de fevereiro. 

Evando Teixeira, ícone do fotojornalismo brasileiro, aos 79 anosUanderson Fernandes / Agência O Dia


“Tínhamos várias maneiras de driblar a censura e, na rua, tinha que saber correr, fugir, se virar”, lembra o fotógrafo, que, além da ditadura, registrou cenas da moda, praia e boemia da década.
Foram anos difíceis para Evandro Teixeira. Ele teve seus equipamentos quebrados, apanhou e chegou a ser preso. O refresco vinha dos momentos em que era enviado para fotografar musas como Leila Diniz e os biquínis que alegravam a orla carioca.

Porém, uma das imagens mais famosas que clicou foi durante o calor da manifestação organizada pelo movimento estudantil contra a ditadura, em 26 de junho de 1968, no Centro do Rio. Parte das 17 fotos que compõem a exposição, o clique já rendeu até o livro ‘68 Destinos: Passeata dos 100 Mil’, onde, após 40 anos, cem pessoas que aparecem nela foram identificadas.

“Tirei aquela foto achando que iria para a capa do ‘Jornal do Brasil’ (onde trabalhou de 1963 a 2010). Aquela faixa era importante (dizia: ‘Abaixo a Ditadura. Povo no poder’), mas foi vetada pelos militares, na época. Os sensores viviam na redação do jornal”, conta ele.

Além da sensibilidade e precisão de apertar o botão na hora decisiva de um acontecimento, Evandro acredita que sua vantagem era a sagacidade. “Eu era esperto e tive a sorte de não ser apanhado”, avalia o fotógrafo, que completa: “Naquele tempo, a bala não era de borracha, era para valer. Mas hoje os jovens podem ver parte desse período da nossa história em minhas fotos”, diz, orgulhoso. 

Foto de manifestação contra a ditadura militarEvandro Teixeira


Aliás, mesmo aposentado das redações há quatro anos, Evandro continua ligado e preparado para novos desafios. Durante as manifestações que eclodiram pelo Rio no ano passado, ele não teve dúvidas: pegou sua câmera e foi para rua também. “Eu andava reclamando que o povo estava muito acomodado, mas vejo que as pessoas acordaram. Registrei alguns dos protestos. Estou cobrando coisas importantes com isso”, afirma ele.

Durante suas novas buscas, uma coisa chamou bastante a atenção de Evandro: a facilidade de se registrar e compartilhar imagens em tempos de celulares com câmeras cada vez mais potentes e internet.

“Quando poderíamos imaginar isso? Antigamente, eu levava horas para enviar uma foto para o jornal. Agora, manda-se tudo direto do telefone. O que é bom, mas também tem um preço para nós, jornalistas. As agências tomaram o espaço do fotojornalismo”, avalia ele, que já viajou o mundo para cobrir diversos acontecimentos políticos e Copas do Mundo. “Em 86, fui expulso de um hotel em Budapeste. Íamos revelar no banheiro, e o negócio sujava tudo. A faxineira ficou p..., e deu 30 minutos para sair de lá”, relembra.

Com 57 anos de carreira, que o transformaram num dos grandes nomes do fotojornalismo no Brasil, entre outros grandes nomes da fotografia, o falante Evandro Teixeira tem muitas histórias para contar. Mas ele não se contenta com isso e prova que aos 79 anos, tem sede de novidades. “Estou preparando três livros. Um deles é autobiográfico”, entrega ele, que já tem sete publicações e um longa-metragem, no currículo. “Quero fazer muita coisa ainda. Afinal, a Copa do Mundo vem aí!” 

MOSTRAS VIZINHAS

Em paralelo à exposição ‘Tempos de Chumbo, Tempos de Bossa: Os Anos 60 Pelas Lentes de Evandro Teixeira’, o Centro Cultural Justiça Federal abre outra mostra fotográfica, ‘Nude’, do pernambucano Henrique Pontual.

Nela, o tema central é a valorização do corpo. As 21 obras se misturam entre os trabalhos quase que abstratos, com imagens de corpos nus sombreados, feitas pelo fotógrafo através de uma técnica própria. O resultado são fotos que se confundem com desenhos feitos a lápis sobre uma superfície de papel branco.

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