Por daniela.lima
Rio - Imagens da repressão militar à efervescência cultural que agitaram uma das épocas mais emblemáticas da história do Brasil: dois opostos eternizados pelos cliques de um dos maiores nomes do fotojornalismo. ‘Tempos de Chumbo, Tempos de Bossa: Os Anos 60 Pelas Lentes de Evandro Teixeira’ é o título da mostra que o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) abriga de hoje até 27 de fevereiro. 
Evando Teixeira, ícone do fotojornalismo brasileiro, aos 79 anosUanderson Fernandes / Agência O Dia


“Tínhamos várias maneiras de driblar a censura e, na rua, tinha que saber correr, fugir, se virar”, lembra o fotógrafo, que, além da ditadura, registrou cenas da moda, praia e boemia da década.
Foram anos difíceis para Evandro Teixeira. Ele teve seus equipamentos quebrados, apanhou e chegou a ser preso. O refresco vinha dos momentos em que era enviado para fotografar musas como Leila Diniz e os biquínis que alegravam a orla carioca.

Porém, uma das imagens mais famosas que clicou foi durante o calor da manifestação organizada pelo movimento estudantil contra a ditadura, em 26 de junho de 1968, no Centro do Rio. Parte das 17 fotos que compõem a exposição, o clique já rendeu até o livro ‘68 Destinos: Passeata dos 100 Mil’, onde, após 40 anos, cem pessoas que aparecem nela foram identificadas.
Publicidade
“Tirei aquela foto achando que iria para a capa do ‘Jornal do Brasil’ (onde trabalhou de 1963 a 2010). Aquela faixa era importante (dizia: ‘Abaixo a Ditadura. Povo no poder’), mas foi vetada pelos militares, na época. Os sensores viviam na redação do jornal”, conta ele.
Além da sensibilidade e precisão de apertar o botão na hora decisiva de um acontecimento, Evandro acredita que sua vantagem era a sagacidade. “Eu era esperto e tive a sorte de não ser apanhado”, avalia o fotógrafo, que completa: “Naquele tempo, a bala não era de borracha, era para valer. Mas hoje os jovens podem ver parte desse período da nossa história em minhas fotos”, diz, orgulhoso. 
Foto de manifestação contra a ditadura militarEvandro Teixeira


Aliás, mesmo aposentado das redações há quatro anos, Evandro continua ligado e preparado para novos desafios. Durante as manifestações que eclodiram pelo Rio no ano passado, ele não teve dúvidas: pegou sua câmera e foi para rua também. “Eu andava reclamando que o povo estava muito acomodado, mas vejo que as pessoas acordaram. Registrei alguns dos protestos. Estou cobrando coisas importantes com isso”, afirma ele.

Publicidade
Durante suas novas buscas, uma coisa chamou bastante a atenção de Evandro: a facilidade de se registrar e compartilhar imagens em tempos de celulares com câmeras cada vez mais potentes e internet.
“Quando poderíamos imaginar isso? Antigamente, eu levava horas para enviar uma foto para o jornal. Agora, manda-se tudo direto do telefone. O que é bom, mas também tem um preço para nós, jornalistas. As agências tomaram o espaço do fotojornalismo”, avalia ele, que já viajou o mundo para cobrir diversos acontecimentos políticos e Copas do Mundo. “Em 86, fui expulso de um hotel em Budapeste. Íamos revelar no banheiro, e o negócio sujava tudo. A faxineira ficou p..., e deu 30 minutos para sair de lá”, relembra.
Publicidade
Com 57 anos de carreira, que o transformaram num dos grandes nomes do fotojornalismo no Brasil, entre outros grandes nomes da fotografia, o falante Evandro Teixeira tem muitas histórias para contar. Mas ele não se contenta com isso e prova que aos 79 anos, tem sede de novidades. “Estou preparando três livros. Um deles é autobiográfico”, entrega ele, que já tem sete publicações e um longa-metragem, no currículo. “Quero fazer muita coisa ainda. Afinal, a Copa do Mundo vem aí!” 
MOSTRAS VIZINHAS
Publicidade
Em paralelo à exposição ‘Tempos de Chumbo, Tempos de Bossa: Os Anos 60 Pelas Lentes de Evandro Teixeira’, o Centro Cultural Justiça Federal abre outra mostra fotográfica, ‘Nude’, do pernambucano Henrique Pontual.
Publicidade
Nela, o tema central é a valorização do corpo. As 21 obras se misturam entre os trabalhos quase que abstratos, com imagens de corpos nus sombreados, feitas pelo fotógrafo através de uma técnica própria. O resultado são fotos que se confundem com desenhos feitos a lápis sobre uma superfície de papel branco.
Publicidade