José Padilha conquista Hollywood

Diretor conta como driblou os estúdios americanos para fazer a sua própria versão de ‘Robocop’, uma produção de US$ 130 milhões

Por O Dia

Rio - José Padilha ignorou as expectativas dos fãs de ‘Robocop’. “Caso contrário, estaria liquidado”, justifica ele. Michael Keaton não quis ver a versão original da história, mas também jura que não assiste nem aos seus próprios filmes. Joel Kinnaman, no entanto, já tinha despertado suspeitas sobre sua sanidade após certa obsessão na infância pelo policial-máquina. E são exatamente esses três que dão forma ao remake do clássico de Paul Verhoeven, que estreia amanhã, com repercussões nacionais e internacionais. Afinal, como o próprio diretor gosta de classificar, “é o primeiro filme brasileiro de Hollywood”. 

José Padilha conquista HollywoodFernando Souza / Agência O Dia

Mesmo antes de escolher os atores principais, Padilha já tinha uma certeza: queria fazer um filme político. E foi além. O que era para ser mais um blockbuster de super-herói, dos estúdios Sony e MGM, nas mãos dele ganhou questionamentos filosóficos, sociais e, de quebra, ainda critica e ironiza a política americana. Tudo bancado pelos próprios gringos, a um custo total de US$ 130 milhões.

Como um cineasta brasileiro estreante em Hollywood conseguiu isso? Desprezou todos os projetos que o ofereceram. Disse que queria mesmo era fazer ‘Robocop’. Exigiu que seu fotógrafo, seu montador e seu compositor, também brasileiros, fizessem parte da equipe. Trouxe o roteirista escolhido por ele e pelos estúdios para sua produtora no Rio e, de resto, foi driblando cada obstáculo que impedia sua liberdade de criação pelo caminho.

“Vendi um peixe e entreguei outro. Mas, depois que você já gastou milhões, como é que vai devolver esse peixe? E eu ainda tinha a vantagem de ter dois estúdios. Enquanto eles se entendiam, eu ia tocando as coisas”, revela o diretor. “Eles me perguntavam: ‘Mas não vai ter uma cena em que o Robocop ganha?’ Eu explicava que quando o Robocop estava tendo sucesso, porque a máquina estava ganhando, e não o homem. Eles ficavam confusos e isso me ajudava”, conta. 

Joel Kinnaman em cena como RobocopDivulgação

Por fim, o que se vê na tela é bem diferente da história lançada em 1987. Agora, tudo se passa em 2018, quando a multinacional OmniCorp vende drones ao mundo inteiro com fins militares. Em contrapartida, os Estados Unidos são o único país que proíbe a prática, por acreditar que uma máquina não pode decidir por uma vida humana. Quando Alex Murphy (Joel Kinnaman), um policial de Detroit, é gravemente ferido em um atentado, Raymond Sellars (Michael Keaton), funcionário da corporação, vê a chance de introduzir o seu produto no mercado americano, fazendo dele meio humano, meio máquina.

“A ideia principal é de que a automação do Robocop pode abrir as portas para o fascismo”, diz Padilha, que realmente acredita que a história de seu filme vai acontecer em um futuro próximo. “Os soldados que executam uma violência extrema são doutrinados a perder a capacidade de crítica. É aquela história do ‘Tropa’: ‘Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão’”, ele alfineta, assim como quando em seu filme diz que o presidente brasileiro foi condenado por corrupção no congresso. 

Michael Keaton%2C em cena como o vilão Raymond SellarsDivulgação

A veia politizada de Padilha foi o que mais atraiu astros como o americano Michael Keaton e o sueco Joel Kinnaman, além do sucesso e prestígio internacional que ‘Tropa de Elite 1 e 2’ tiveram. “Não estava interessado por ‘Robocop’, mas quando soube que era do Padilha, mudei de ideia. Já tinha assistido a ‘Ônibus 174’ e ‘Tropa de Elite 1 e 2’ e fiquei fascinado”, defende Kinnaman, que estava cansado de remakes mal-feitos e não queria fazer um trabalho ruim porque é fã da versão de 1987. Ele assistiu umas 25 vezes quando era criança.

“Minha mãe é psicóloga e chegou a achar que eu sofria de alguma psicose”, conta, aos risos. Seu colega Keaton compartilha da admiração. “Acho que fui o último a chegar no elenco e admiro muito todos que estavam nele. Sem dúvida, isso e o fato de trabalhar com o Padilha pesaram mais na minha escolha por fazer ‘Robocop’”.

“Fazer um filme político de estúdio é muito difícil, pois não é o que eles curtem. Acho que os americanos subestimam os espectadores”, comenta o cineasta, admitindo que, além de suas artimanhas, teve bastante sorte. “Lá, o diretor tem direito a exibir o filme para críticos antes do corte final. Todos deram notas ótimas e disseram que gostaram, pois era um filme político. Isso me salvou”, assume.

Ele também faz questão de explicar a diferença entre fazer filmes no Brasil e nos Estados Unidos, para quem compara a liberdade de criação do diretor nesses dois países. “Aqui existe uma restrição orçamentária e isso impossibilita muita coisa”, resume ele, que completa dizendo que nos Estados Unidos, quem investe milhões no filme tem o seu controle. Porém, há uma estrutura e o sindicato dos diretores é bem forte.

“‘Robocop’ vai ganhar dinheiro”, acredita ele, otimista mesmo com a estreia por lá ter coincidido com uma nevasca e algumas críticas negativas. “Estou calejado. Abri o ‘Tropa 1’ com a pirataria. O filme foi considerado o mais incrível do mundo. Depois, eu virei fascista... Os filmes têm história e isso não se faz em cinco dias”, conclui Padilha, que nem pensa em férias por agora. Ele já planeja filmar uma história sobre a Tríplice Fronteira (entre Brasil, Argentina e Paraguai, conhecida pelo contrabando) com Wagner Moura, avalia se fará uma série sobre Pablo Escobar para o Netflix e já tem contrato com a Warner para dirigir uma ficção científica que escreveu aos 18 anos.

POR TRÁS DOS BASTIDORES

Joel Kinnaman sofreu por baixo da armadura do Robocop. Ele passou 14 horas por dia dentro da roupa do policial, durante os cinco meses de filmagem. Chegou a perder 12 quilos e, quando relembra a experiência, confessa: “Foi preciso muita paciência e concentração.”

Mas o protagonista não foi o único que sofreu. José Padilha, o diretor, teve uma crise de diverticulite e precisou ser operado. Como não podia interromper o trabalho no set, passou 40 dias tomando antibióticos, até conseguir uma pausa. Foi quando retirou um pedaço do intestino e, em apenas duas semanas, já estava de volta ao batente.


Últimas de Diversão