Frustrados com a falta de espaços para shows, bandas vêm tomando praças públicas

Artistas reclamam que sofrem repressão, o que a Prefeitura do Rio nega

Por O Dia

Rio - Já faz um tempo, músicos, produtores e o próprio público vêm reclamando que o circuito de espaços para shows no Rio está diminuindo em ritmo acelerado. “Percebemos que estávamos tocando cada vez menos aqui. E sempre nos mesmos lugares, para as mesmas pessoas e ganhando pouco”, desabafa Bernar Gomma, guitarrista do grupo Beach Combers, um dos muitos que, na intenção de sanar tal problema, está partindo para as praças e calçadas da cidade. “Quando nos apresentamos na rua, conseguimos alcançar um público novo, com a vantagem de não depender de ninguém, só de nós mesmos. Chegamos no local definido, montamos o som e atacamos, simples assim.” 

O grupo Beach Combers em ação na CinelândiaDivulgação


Com as caixas dos instrumentos na frente aberta a contribuições dos passantes, nomes como Astro Venga, Tree e Dominga Petrona, além do Beach Combers, podem surgir a qualquer momento em locais como Aterro do Flamengo, Praça São Salvador, Praça General Osório, Posto 9 (da Praia de Ipanema), Praça Saens Peña, Cinelândia, Largo do Machado, Praça 15, Parque dos Patins, Rua do Lavradio, Largo da Carioca e até em cima da Pedra do Arpoador.

“Para a alimentação dos amplificadores, usamos uma bateria comum de automóvel ligada a um inversor. Não divulgamos as apresentações de rua com antecedência pois tudo pode acontecer antes de chegarmos ao local e definitivamente montarmos o equipamento”, explica Mindu, baixista do Tree.

Por “tudo pode acontecer”, entenda-se uma chuva inesperada ou sofrerem algum tipo de repreensão (leia mais no texto ao lado). Mais que o dinheiro (“Tem dias em que se tira uma quantia razoável e outros em que só se ganha para pagar o transporte”, contabiliza Mindu), são as histórias divertidas que fazem valer a aventura. “Um cara chegou no meio do show pedindo para usar o microfone e chamar o filho dele, que havia se perdido. Como nosso som é só instrumental, não temos microfone, então encaminhamos o rapaz até a Secretaria de Postura. No final, o cara voltou e me abraçou, dizendo que iria nos dar mil reais, e fez”, comemora Guzz The Fuzz, baixista do Beach Combers. 

'Houve um erro dos agentes%2C que já foram advertidos'%2C afirmou a SeopDivulgação


Secretaria de Ordem Pública diz que houve erro de agente

De acordo com a lei municipal número 5.429, que dispõe sobre a apresentação de artistas de rua nos logradouros públicos do município do Rio de Janeiro, são permitidas as manifestações culturais de artistas em espaços públicos abertos, mas é preciso respeitar requisitos tais como volume, horários e não atrapalhar a circulação de pedestres.

No entanto, nas últimas semanas, Dominga Petrona e Tree reclamaram de repressão do poder público durante suas apresentações, no Largo do Machado e em Botafogo. Procurada pelo DIA, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) respondeu, através de sua assessoria de imprensa, que “houve um erro dos agentes, que já foram advertidos. Os artistas podem mostrar sua arte e até comercializar seus CDs, DVDs ou livros, a única coisa vedada a eles é cobrar ingresso”.

Histórias divertidas vividas pelas bandas valem o show 

O dinheiro pode ser curto, mas os artistas que se dispõem a ocupar as ruas com sua arte se emocionam com situações inesperadas 

Um dos primeiros grupos a se aventurar pelas ruas cariocas, o Dominga Petrona já fazia tais apresentações em Buenos Aires, na Argentina, onde a banda foi formada. E desde lá reúne casos pitorescos registrados nessas intervenções urbanas.

“A gente tocou perto de um escritório que pertencia ao Ministério da Cidade. Era meio-dia e, após a primeira canção, um senhor muito bem vestido e muito educado nos pediu para parar, porque estava atrapalhando uma reunião. Respondemos: ‘Por favor, deixe a reunião para outro dia e venha ouvir a banda’. O senhor entrou no prédio e, depois da segunda música, voltou, perguntando quantos discos a gente tinha para vender. Ele comprou 30 discos, mas perguntou:

‘Agora vocês param de tocar?’ Paramos, afinal, nunca mais vai acontecer de tocar só duas músicas e vender 30 discos!”, diverte-se o baixista Cristian Kiffer. No Posto 9, dois meninos de 10 anos emocionam tanto a plateia quanto os próprios músicos do Tree, quando se apresentam por lá.

“Eles sempre vêm tocar bateria nos intervalos do show e chamam a atenção de quem circula pelo local. É muito gratificante para nós, sobretudo porque um deles tem origem humilde e testemunhamos ali uma oportunidade de despertar um novo talento nessa criança”, comove-se Mindu.

Na Praça São Salvador, os ambulantes fizeram uma vaquinha para presentear o Beach Combers. “E disseram pra voltarmos lá toda semana!”, festeja Bernar. “Volta e meia recebemos também bilhetes com diversos elogios e até com propostas indiscretas”, revela.

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