Por tabata.uchoa

Rio - Não conheço sentença sobre o Carnaval mais precisa do que a do mestre Aldir Blanc, meu vizinho nas cercanias do rio Maracanã: “a fantasia é um troço que o cara tira no Carnaval e usa nos outros dias”. Falou e disse. Meu ídolo carnavalesco, por isso mesmo, é o folião desconhecido, aquele sujeito que desaparece na sexta-feira, com o clássico argumento de que vai comprar uma aspirina na farmácia, e só volta na Quarta-feira de Cinzas. Nos dias de esquecimento, o sujeito tira o disfarce de professor, gari, motorista de ônibus ou advogado e deixa aflorar o pierrô triste, o pirata ébrio, o imperador romano e o faraó descacetado que descansam adormecidos o resto do ano.

É por isso que ando implicando com uma figurinha fácil nestes tempos modernos: o folião virtual. Ele, o virtual, faz questão de postar mil fotos em redes sociais para mostrar como está fantasiado, em que bloco esteve e em que bloco está. Não percebe, o alegre, que o Carnaval é uma festa de esquecimento, velamento e máscara. Tudo que um verdadeiro folião deve pedir a Momo é que ninguém o encontre, para que, sem amarras, ele possa tirar a fantasia de funcionário público, libertar o Nero e incendiar Roma. O carnavalesco de rede social, todavia, quer ser encontrado, compartilhado e curtido.

Recordo-me, por exemplo, de uma história que meu avô contava sobre um vizinho de Olaria, uma espécie de reserva moral do bairro, casado com uma jararaca clássica. O sujeito saiu de casa na sexta-feira com o argumento de que iria comprar uns caranguejos — prato predileto da esposa — para comer no almoço de sábado de Carnaval, na santa paz do lar e bem longe do quem não chora não mama do Bola Preta.

Eis que o marido zeloso reaparece, pra lá de Bagdá, na Quarta-feira de Cinzas, protagonizando uma cena definitiva. Fantasiado de Calígula, com discreta coroa de louros se desmilinguindo na cabeça e um vigoroso bafo de cana, espalha vinte caranguejos vivos no chão da entrada da casa e chama a mulher, preparada para trucidá-lo. Ao ver a cara feia da patroa, começa a falar alto, dedo em riste, dando esporro nos crustáceos:

— Mais um pouco, pessoal. Falta pouco. Como são lentos. Quatro dias com a maior paciência e nada de vocês andarem mais rápido. Da próxima vez eu meto todo mundo numa bolsa e não deixo ninguém vir andando.

É a ele, o folião anônimo, que desejo, em seus dias de Nega Maluca, um ótimo Carnaval. Na Quarta-feira de Cinzas a gente volta a vestir a fantasia que nos acompanhará até o ano que vem.

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