Por daniela.lima
Bia Willcox%3A Mais selfies%2C por favorDivulgação

Rio - E por falar em amor, começo com mais um clichê.
Fiz vários cálculos aritméticos, usei logaritmos, apelei para a química orgânica e a física quântica, mas não houve jeito: é impossível falar de amor sem virar clichê. Acostumem-se.
Antes, por pura pretensão e alguma arrogância, tentava buscar alternativas a ele e fui ficando paranoica com o tempo. Assistia a filmes pontuando todos os clichês e endeusava escritores e cineastas nem tão deuses assim, só pelo fato de eles não terem escorregado em nenhum chavão ou lugar-comum. Como eu fui boba e até cafona.

Sim, cafona. Pelo menos quando se trata de conexões humano-afetivas, fugir do clichê óbvio é kitsch.

E, tendo assim me justificado, vamos mergulhar em mais sabido clichê: o amor-próprio. Impossível amar alguém sem se amar primeiro.

Tenho certeza de que muitos de vocês ouvem isso a toda hora e duvidam também. Quando gostamos de alguém, é difícil acreditar que somos capazes de amar mais a gente mesmo. Convivemos com nós mesmos 24 horas por dia. Ficamos de saco cheio de nossos defeitos, de nossas reações previsíveis e muitas vezes até da nossa voz.

Como assim gostar mais da gente do que da outra pessoa de quem acreditamos gostar?

Impossível! — diriam muitos. Eu, hein, parece que bebe...
Albert Camus então bebeu quando disse que o homem não pode amar ninguém se não amar a si próprio. E eu, que sou fã desse filósofo absurdista (que na verdade não disse nenhum absurdo), prefiro acreditar que isso é possível e até mesmo recomendável.

Amor-próprio precisa de combustível e o mais potente deles é a autoestima.

Contrária a muitos que acreditam que a autoestima tenha a ver com coragem e espírito forte, ouso dizer que autoestima tem a ver com crença.

Não uma crença padrão, onde a gente respira fundo e se enche daquela certeza de que vai vencer. O nome disso é autoconfiança.
Falo de uma crença diferente: é quando somos convencidos por fatores internos e externos de quem somos.
É acreditar que podemos afetar quem está por perto.
É aprender a seduzir e convencer os outros de quem somos, usando as nossas melhores armas.
É acreditar no espelho, metafórico ou não.

Autoestima é charme espelhado. Borogodó manufaturado.
Por isso apoio qualquer recurso ou artifício utilizado em prol de aumentarmos o combustível do nosso amor-próprio.
Bato palmas pros smartphones, que nos permitem inverter a câmera do celular e tirar fotos de nós mesmos.
Acredito piamente nos selfies, defendendo-os até a morte.
Quando alguém se permite fazer um selfie, mostra libertação, um passo em direção ao amor-próprio. Se liberta do outro que faria a foto, se liberta dos preconceitos, da falsa modéstia e do medo do julgamento alheio. Sim, perde-se o temor do ridículo — passo gigante para alcançar a autoestima desejada.

O selfie é livre, descolado por natureza e permite ao modelo, o maior interessado, escolher ângulos melhores, corrigir defeitos e imprimir sorrisos, caretas ou mesmo sensualizar pra geral. O selfie reflete o melhor de cada um. Ele carrega nele a energia melhor de cada um.
É o espelho que abastece a autoestima e, por consequência, o amor.
Amor-próprio maior, maiores as chances de amar mais e melhor alguém. Maiores ainda as chances de felicidade.

Então selfie é clichê?

Sim. E eu, pobre mortal, não tenho mais a menor pretensão de fugir dele, do clichê. E nem dele, do selfie.

Mais selfies, por favor.

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