Salas de cinema na Baixada e nas zonas Norte e Oeste exibem só blockbusters

Maioria dos filmes são dublados e cinéfilos reclamam da falta de opção de programação

Por O Dia

Rio - O possível encerramento das atividades do Grupo Estação criou um dramalhão digno do diretor Pedro Almodóvar entre os cinéfilos do Rio de Janeiro. Desde o dia 17 do último mês, quando Marcelo Mendes, sócio do grupo, anunciou que corria risco de falência, uma mobilização se espalhou pelas redes sociais, buscando soluções para salvar o maior exibidor de filmes fora do grande circuito no Rio. Para uma parcela dos amantes da sétima arte da cidade, no entanto, a resistência do Estação (que será decidida no próximo dia 3) não garante o fácil acesso a produções independentes: quem mora na Baixada, Zona Oeste e Zona Norte enfrenta um roteiro recheado de percalços para assistir a um filme considerado não comercial.

Fernanda Moreira não encontra opção em São João de MeritiCarlo Wrede / Agência O Dia

Morador da Vila da Penha e fã de cinema, Marcello Almeida, de 23 anos, estudante de arquitetura, se desloca para a Zona Sul para encontrar o tipo de filme que gosta. “Não vou ao cinema perto da minha casa, mesmo morando a dez minutos de um shopping com uma grande rede. Se a programação se adequasse mais ao meu gosto, ficaria feliz de pegar um cinema por perto, mas a cartela de filmes só inclui blockbusters, sempre dublados”, lamenta ele, que atravessa a cidade de metrô para ir ao cinema. “Não deixo de ir por causa da distância, mas, às vezes, fico com preguiça de gastar mais tempo para chegar do que para ver o filme”, diz.

Mas por que há tanta diferença na programação de acordo com o local da cidade? Assistir aos filmes que concorreram ao Oscar, por exemplo, foi uma tarefa bastante complicada para quem está longe do eixo Barra/Zona Sul/Tijuca. “Toda a grade de programação da Rede UCI é pensada para atender ao público que frequenta cada cinema”, diz Monica Portella, diretora de marketing da rede UCI, acrescentando que há uma análise semanal da receptividade de cada uma das películas.

Moradora de São João de Meriti, a professora de inglês Fernanda Moreira, de 26 anos, contesta. “A maioria das pessoas que eu conheço e que mora aqui reclama de ter que ir para longe para ver bons filmes. Com certeza, iria mais ao cinema se a programação fosse mais diversificada e se os filmes não fossem praticamente todos dublados, o que diminui a qualidade e a originalidade das produções”, reclama.

Uma prova de que esse público existe é o Ponto Cine de Guadalupe. Foi no Bairro na Zona Norte do Rio de Janeiro que o agitador cultural Adailton Medeiros abriu sua sala de cinema, um projeto social que se propõe a levar, por um preço justo (R$ 6 a entrada inteira), cinema de primeira linha para o subúrbio. Em uma sala acolhedora de 73 lugares, o Ponto Cine exibe filmes italianos, iranianos, gregos, franceses, mas o foco é o cinema brasileiro. “Vamos fazer oito anos aqui. Então, é sinal de que as pessoas querem. Isso de que não existe público para certo tipo de filme é papo furado. Há uma ditadura mesmo entre os distribuidores e as grandes redes, que funcionam como determinadores de gosto, escolhendo onde praticamente só vai passar ‘Homem Aranha’ e ‘Homem de Ferro’, e onde outras coisas vão chegar”, afirma Adailton.

Outra grande rede, o Kinoplex, que tem salas espalhadas pela Baixada e Zonas Norte, Oeste e Sul, dá uma resposta parecida, quase ensaiada com a de sua concorrente. “Estamos atentos à demanda do público e constantemente avaliando o resultado de cada filme em cada cinema, por gênero, tema e versão dublada e legendada. Estabelecemos a programação dos nossos cinemas de acordo com esta análise, que traduz o perfil do público e de cada região”, diz Patrícia Cotta, gerente de marketing.

Mas quem mora na Baixada reclama. “Para começar, é praticamente impossível ver um filme em sua língua original. Todos os filmes em todos os shoppings são dublados”, protesta Rafael Marmelo, de 23 anos, bacharel em Relações Internacionais e morador de São João de Meriti. “Depois, aqui nunca passam filmes cults, mas o próximo filme do Didi com a filha dele com certeza vai chegar”, diz ele, que gasta, no mínimo, R$ 16 em passagem para ir ao cinema. “Tem que querer muito ver um filme para gastar isso, fora o ingresso”, diz.

Na contramão das grandes redes, Adailton é taxativo em afirmar que a distribuição desigual pela cidade não tem a ver com perfis culturais. “Isso é uma característica do que está acontecendo na indústria. É mercado, não cultura. Tem uma frase do Gil que diz: ‘O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe’. Se as pessoas conhecerem outro tipo de cinema que não o americano de Hollywood, vão querer. Vão gostar”, afirma.

“Nasci em Anchieta e cresci ouvindo que as pessoas daqui não têm condições financeiras ou intelectuais para consumir cultura, e isso é uma discriminação. Faço um trabalho de pertencimento, trazendo o público daqui e mostrando que eles podem, sim, frequentar e entender cinema”, diz ele, que pensa em estender o seu Ponto Cine para outros lugares, mas precisa de verba.

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