Por daniela.lima

Rio - Arte e Complexo do Alemão já são quase sinônimos. Depois de servir de cenário para a novela ‘Salve Jorge’, a comunidade da Zona Norte empresta as suas lajes para a exposição ‘Deu na Telha’, que poderá ser vista a partir do próximo sábado, 29, do alto do teleférico que faz o transporte no morro, entre as estações Baiana, Alemão e Itararé. 

Derlon Almeida pintou rostos que representam a felicidade no convívio da pessoasDivulgação


“Esse é um projeto revolucionário. É a primeira exposição aérea de que se tem notícia. Pelo menos da forma como foi feita, pensada na comunidade e com moradores participando ativamente. Todo o processo é muito rico, porque a ideia é descobrir talentos locais e indicar os caminhos da arte para eles”, diz Ricardo Duarte, curador da mostra, que tem patrocínio da Kibon.

Um dos destaques da exposição é a obra produzida pelos 80 alunos que participaram dos workshops ministrados na comunidade pela artista plástica Susana Anágua. Eles assinam com ela um trabalho que ficará exposto até junho, quando a primeira parte do projeto, que tem a felicidade como tema, será finalizada.

“Essa obra conjunta virou uma espécie de trabalho final do curso, que incluiu aulas de técnica de pintura, artes e história da arte. A nossa intenção é que esse projeto tenha outras edições e que, aí sim, a gente possa ter talentos da comunidade expondo”, explica Duarte.

Os 11 trabalhos que fazem parte do ‘Deu na Telha’ vão cobrir casas do Alemão com lonas que estampam o registro fotográfico das obras feitas com exclusividade para o projeto. E essa ação, de acordo com o curador, mexeu com a autoestima dos moradores.

“Procuramos os proprietários dos imóveis que tinham telhados com melhor visibilidade e a receptividade não poderia ter sido melhor. Eles se sentiram honrados, orgulhosos, em participar de um trabalho como esse. A escolha dos telhados também gerou renda para as famílias, que estão recebendo um aluguel”, conta Duarte.

A satisfação da comunidade no que diz respeito a esse projeto não é por acaso. Além dos jovens que frequentaram os workshops de artes, 100 moradores trabalharam ativamente na produção de ‘Deu na Telha’, além das 600 pessoas que são beneficiadas pelas ações de inclusão social da ONG Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (Educap), que promove gratuitamente cursos de informática, inglês, alfabetização e reforço escolar.

“O ‘Deu na Telha’ é o projeto do coração de todo mundo. Abraçamos a causa de fazer a primeira exposição aérea do Brasil e deu certo. Envolvemos a comunidade nesse sonho. E, quando a exposição terminar, as lonas não serão jogadas no lixo. Elas serão reaproveitadas e entregues para a comunidade em forma de material escolar”, diz Isabel Masagão, gerente de marketing da Kibon.

Há também a expectativa de que fique um legado artístico no morro. “O bacana desse projeto é que, nesse caso, a arte não está em um museu ou em outro país, está ao lado da casa delas. Acredito que a arte só não é valorizada quando não se tem acesso, por isso tenho certeza que essa exposição será um sucesso. Quem sabe, se surgir alguém da comunidade com uma super-habilidade, a gente não invista nesse potencial?”, cogita Masagão.

De fato, talentos não faltam entre os que vivem em uma realidade adversa. Heberth Sobral, um dos artistas plásticos que expõem em ‘Deu na Telha’, é de origem humilde, cresceu em uma comunidade no Grajaú e, depois de ser descoberto por Vik Muniz, viu a sua vida mudar. 

“É muito positivo quando a arte surge em meio a tanta coisa negativa. Fui descoberto em um projeto social que foi feito na Zona Portuária há alguns anos. Em 2010, fiz a minha primeira exposição, e hoje tenho o privilégio de participar do ‘Deu na Telha’. É uma responsabilidade saber que estou dando uma contribuição social através do meu trabalho”, diz o artista plástico, que criou uma obra com imagens de bonecos Playmobil.

“Fiz com esses bonecos porque eles estão sempre sorrindo e o sorriso é a forma que escolhi para representar a felicidade”, comenta Sobral. Já para Ricardo Duarte, curador de ‘Deu na Telha’, felicidade para ele “é poder colocar um projeto desses em pé”.

Reportagem: Regiane Jesus

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