Luiz Antonio Simas: A cidade elegante

Não sei que diabos é a cena fashion, mas de moda eu entendo e não vou deixar barato. Os cariocas são elegantes

Por O Dia

Luiz Antonio Simas%3A A cidade eleganteDivulgação

Rio - Dia desses, encontrei no 422, linha Cosme Velho-Grajaú, uma amiga do meu irmão. A moça parecia oriunda do espaço sideral: cabelos azulados, unhas verdes e roupa que lembrava a dos astronautas da antiga série de TV ‘Perdidos no Espaço’. Ao lado dela, um sujeito com cabeleira à Buffalo Bill, suspensório do palhaço Carequinha e calça pescando siri. Diante do meu espanto, ela sorriu e disse que eu não estava antenado com as tendências da cena fashion. Arrematou afirmando que cariocas não sabem se vestir.

Não sei que diabos é a cena fashion, mas de moda eu entendo e não vou deixar barato. Os cariocas são elegantes. Meu avô só se vestia, nos tempos em que vendia enciclopédias, com ternos de primeira. O velho tinha três exemplares; um da Ducal (crediário em parcelas fixas), um da Sua Majestade e outro da Casas José Silva. Para arrematar, camisas da São João Batista Modas, loja que eu sempre achei a ideal, por ter nome de cemitério, para vestir defuntos. O sonho do coroa era ter um terno da Hob Club, que vestia o Agnaldo Timóteo e tinha um mote de propaganda fabuloso: “Há décadas vestindo mitos”.

Outro grande exemplo de elegância masculina foi um Zé Pilintra de uma curimba na Piedade, que usava um legítimo linho da Impecável Maré Mansa. A loja também patrocinava o programa ‘A Turma da Maré Mansa’, um clássico do rádio brasileiro. Como do primeiro terno a gente nunca esquece, a Impecável Maré Mansa está na memória afetiva de legiões de cariocas bem vestidos.

As mulheres preferiam a Citycol, com fabulosa linha de roupas femininas, masculinas e íntimas, e a Imperatriz das Sedas, a que tem de tudo. Em matéria de última moda para crianças, se destacavam a Silhueta Infantil, a Tuninha e O Príncipe. Esta última, com o lema “a loja que veste hoje o homem de amanhã”, tinha como modelo o menino Alvinho Costa e Silva, futuro homem de imprensa.

Os que preferiam fazer a própria roupa em alfaiates de responsa tinham a opção de comprar tecidos na Khalil M. Gebara. Aproveito para registrar o pânico que eu sentia do garoto-propaganda, com memorável bigode e cabelos mais negros que as asas da graúna (davam pinta de tingidos com os tabletes Santo Antônio), que berrava apoplético o slogan “ninguém, ninguém segura o Khalil”. O cidadão parecia querer saltar das telas dos televisores para agarrar as pessoas e levar ao magazine mais próximo.

O Rio de Janeiro sempre foi, enfim, uma espécie de Milão tropical; elegante até não poder mais. E de moda, que me perdoe a moça do espaço sideral, eu entendo e esta coluna prova.

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