Por tabata.uchoa

Rio - Este é o nome de um texto, dentre tantos outros, delicioso do poeta maior Carlos Drummond de Andrade. Talvez muita gente não saiba, mas ele dedicou parte de sua preciosa produção ao tema futebol. Em uma pesquisa para um musical, me deparei com esta pérola no livro ‘Quando é Dia de Futebol’.

Carlos Drummond de AndradeDivulgação

Sou torcedor do Flamengo de roer as unhas, de jogar rádios de pilha ilusórios nos bandeirinhas, de proferir palavrões que dicionários respeitados ignoram. Certo dia, tive o prazer de entrevistar, no Maracanã, o melhor jogador do mundo do Flamengo, Zico. Ele chegou, cumprimentou a todos e, quando chegou a minha vez disse: “Eu te conheço, não?” Claro que não! Sabe-se lá como eu consegui brincar com ele. Respondi que sempre estive ao lado dele, desde molecote, “mais ou menos ali”, sorri, apontando para a arquibancada — sim, ainda existia arquibancada — do velho estádio.

Mas a paixão clubística não me impede de tentar compreender o que representa o futebol em minha vida. Sou peladeiro, e peladeiro que se preza tem apelidos. Já fui Beijoca, para quem não se lembra, o centroavante baiano robusto e encrenqueiro que chegou a vestir o manto, por sinal, bem apertado nele. Mas também já fui Umbabarauma, o ponta de lança africano, o homem-gol criado por Jorge Ben Jor. Tudo por conta de gols incríveis... que perdi. Mas na hora de dormir eu refaço a história e os transformo em golaços de sonhos.

Para mim, o futebol representa parte fundamental da existência do ser humano, que é o vínculo com a infância. Talvez por isso os homens tenham tanta dificuldade de amadurecer. As mulheres, sábia e rapidamente, deixam suas bonecas de lado para cuidar de coisas mais importantes. Mas mesmo elas já descobriram há tempos o futebol. Melhor, descobriram o futebol lúdico, desamarrado de esquemas, com cheiro de campo de terra batida.

Sou apaixonado, repito, pelo futebol. Lembro que, em uma entrevista, Ronaldo Fenômeno disse que não gostava muito de assistir a jogos, que amava mesmo era correr atrás da bola. Compreendo, o futebol virou coisa séria demais, como se o destino do mundo pudesse ser decidido em uma partida, como se a vitória ou a derrota determinassem o sentido da vida. Fico com Ronaldo, artilheiro nato, brilhante como eu em meus sonhos. Ainda prefiro correr atrás da redonda, mesmo recebendo críticas e radinhos na cabeça, do que ver a infância transformada em coisa de adulto. Aliás, o Emerson Sheik, ao chegar ao Botafogo, pronunciou um chavão moderno: “Jogo de Libertadores separa os homens dos meninos.” Coitado, cresceu.

‘Perder, Ganhar, Viver’ trata da derrota da nossa seleção na Copa de 1982. O gênio Drummond não fala do jogo em si, do campeonato, apenas do sentimento de frustração que se abateu sobre nós. “Vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados. Vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida. Vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria.” O poeta, delicado, conclui que a derrota é instrumento de renovação da vida, que ela, apesar de jamais desejada, implica a remoção dos detritos, em um começar de novo.

O futebol é, sim, uma metáfora da vida. Mas é apenas um jogo. Menos lúdico, cercado de interesses, mas ainda um jogo. Tento seguir esta lógica dentro da minha irracionalidade de torcedor. Não tenho saco para os furiosos nem para os que só vêm méritos em suas vitórias. Gosto da brincadeira.

Acabou o moribundo Estadual, já começou o Brasileirão de presságios não muito bons para o meu time, e lá vem a Copa do Mundo. Já me antecipando para a vitória inapelável ou para a derrota amarga, faço minhas as palavras do poeta: “Amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está indo para a segunda metade”...

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