Luiz Antonio Simas: Medicinas cariocas

O médico mais famoso da história do Rio foi Nero, o Imperador de Roma, incorporado no médium Lourival de Freitas

Por O Dia

Rio - Sou um sujeito cheio de manias e premonições em relação ao Rio de Janeiro e seus personagens. Dia desses, ao pedir limonada em uma lanchonete do Largo do Machado, fui assombrado pela recordação da morte do médico Clarimundo de Melo, que no inicio do século passado tinha consultório na Farmácia Portela, perto da atual estação de trens de Quintino. Larguei a limonada de lado.

É que o doutor morreu por engano, em 1909, ao beber ácido achando que ingeria uma limonada contra prisão de ventre. Bastou um gole do líquido maldito para o médico cair durinho e virar nome de rua. A Clarimundo de Melo, uma espécie de Champs-Élysées suburbana com mais borogodó, é importante ligação entre os bairros do Encantado e Quintino. Exatamente por isso, ao ver a limonada à minha frente, tive a certeza súbita de que cairia inapelavelmente fulminado por uma dose cavalar de ácido.

A popularidade do Doutor Clarimundo de Melo, à época em que viveu, só não era maior que a do Doutor João da Gama Filgueiras Lima, médico do Engenho de Dentro e um dos principais divulgadores do kardecismo e da homeopatia no Brasil. Durante a epidemia da gripe espanhola, em 1918, Filgueiras Lima publicou, no jornal ‘A Noite’, receitas contra os sintomas da doença para aqueles que não tinham como obter tratamento. O Doutor Filgueiras morreu em 1922, mas continuou clinicando por caridade, ao baixar em centros kardecistas do subúrbio e receitar remédios homeopáticos contra todos os males. Virou nome de rua, no Riachuelo.

O médico mais famoso da história do Rio foi, todavia, Nero, o Imperador de Roma, que baixava em Cavalcante, na década de 1950, incorporado no médium Lourival de Freitas. Segundo o próprio espírito, Nero dava consultas médicas para purgar os pecados que cometeu quando mandou incendiar Roma e abrir a barriga da própria mãe. Meu avô chegou a se consultar com o Imperador, que receitou banho de querosene para tratar uma erisipela. O velho preferiu, em se tratando de Nero e querosene, não arriscar, e pulou fora, antes que o espírito pegasse os fósforos.

Louvemos ainda as rezadeiras dos subúrbios e da Baixada Fluminense, que curavam “espinhela caída”, “ventre virado”, “nervo torcido” e todos os tipos de quebranto, com suas “Salve Rainha” e seus galhos de arruda, vassourinha e espada-de-são-jorge. E as pretas velhas de umbanda? A uma delas devo a cura de um calombo que tinha na cabeça, herança do parto com fórceps, que me fez ser apelidado, ainda nas mamadeiras, de “menino ovo”.

Meus respeitos, por tudo isso, aos médicos do povo!

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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