Por daniela.lima
Publicado 28/04/2014 22:28 | Atualizado 28/04/2014 22:30

Recife - O sonho de Jorge Furtado era ser jornalista. Ele trocou a faculdade de Medicina pela de Comunicação. Mas acabou seduzido pelo cinema e nunca mais saiu da área. Hoje, com 30 anos de carreira, ele resgata sua antiga paixão e acaba de lançar seu primeiro documentário longa-metragem, no Cine PE Festival Audiovisual, em Olinda, o ‘O Mercado de Notícias’, que fala justamente sobre a imprensa. Além disso, já tem pronto outro filme inédito de ficção, baseado em matérias que viu em jornais e TVs, com Adriana Esteves e Vladimir Brichta no elenco. 

O ator Thiago Prade vive um dos jornalistas do documentário ‘O Mercado de Notícias’%2C inspirado em peça do escritor inglês Ben JonsonDivulgação


Inspirado pela peça cômica ‘The Staple of News’, escrita em 1625 pelo dramaturgo inglês Ben Jonson (1572-1637), o cineasta intercala a encenação da história com 13 entrevistas com jornalistas de vários veículos. Na trama, o mercado de notícias de Londres cria um intenso comércio de informações, discutindo o papel da imprensa através do humor. “Conforme eu ia lendo aquilo, ia achando tudo cada vez mais atual”, conta Furtado sobre o texto, escrito apenas três anos após o nascimento do primeiro jornal da capital britânica.

“A história da comédia é bem interessante, pois, geralmente, trata de assuntos sérios. É um drama ao reverso”, classifica ele. Se é melhor rir do que chorar, Furtado extraiu a graça de algumas notícias reais, absurdas, para usar como exemplos em seu filme. Uma delas, é o caso da bolinha de papel atirada na cabeça de José Serra, durante a campanha presidencial de 2010. Na ocasião, o candidato chegou a ser submetido a uma tomografia e a exames clínicos devido ao fato, que repercutiu na mídia como uma suposta agressão por militantes governistas.

“Hoje, isso é engraçado. Mas, na época, virou um grande caso político”, comenta o diretor. Outra situação que arrancou gargalhadas de um público de 2 mil pessoas, durante a exibição na noite de domingo, no Teatro Guararapes, foi a do Picasso do INSS. Trata-se de uma matéria publicada por um jornal paulista, em 2004, sobre o descaso com o valor do quadro ‘A Mulher em Branco’, do pintor espanhol, pendurado na parede da repartição do governo federal. “Estudei artes plásticas e, quando vi o quadro na matéria, me perguntei: ‘Será que é um esboço de Picasso?’ Mas era um pôster! O que o jornalista deveria ter feito? Perguntar de onde surgiu esse pôster, quem o avaliou, quanto foi pago...”, Furtado enumera, e depois ri.

Leitor ávido, o cineasta, nascido em Porto Alegre, segue uma rotina diária: acorda bem cedo, lê os jornais e, às vezes, o que absorve deles o inspira tanto que acaba virando ficção em suas mãos. Foi assim com ‘Beleza’, filme ainda inédito, nascido de uma notícia sobre modelos brasileiras. “Li no (jornal inglês) ‘The Guardian’ que, das 20 modelos brasileiras mais famosas, 12 eram gaúchas. A maioria delas vem do sul do país. Depois, assisti a uma reportagem da BBC sobre o tema e comecei a escrever essa história. O jornalismo está sempre me inspirando”, diz.

Na trama, está Vladimir Brichta, que vive um fotógrafo à procura de novas modelos. Negociando com a família, que é contra a filha seguir a carreira, ele se apaixona pela mãe da jovem, interpretada por Adriana Esteves.

Aliás, após oito anos preparando o documentário ‘O Mercado de Notícias’, sua paixão pelo jornalismo só cresceu. Além de abordar o assunto no longa, o diretor montou um site (www.omercadodenoticias.com.br) em que pretende compartilhar todo o seu processo e novas entrevistas. “O filme é como um cardápio do que tem no site. Depois que o filme for lançado (ainda não há previsão de data), vou colocá-lo lá na íntegra”, detalha. Por enquanto, quem visita o endereço eletrônico tem acesso a todas as referências e pesquisas que Furtado utilizou para o documentário. E também às entrevistas com os jornalistas, que estão sendo publicadas na íntegra, uma a uma, e a peça de Ben Jonson.

“O meu objetivo principal com o filme é valorizar o trabalho do jornalista. Fui lincando os assuntos da peça com as entrevistas. Na verdade, eu fiz a pauta das entrevistas já em cima dos temas da peça”, diz o diretor, que agora se prepara para entrevistar o jornalista Caco Barcellos e dar continuidade ao projeto do site.

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