Luiz Antonio Simas: A matraca da saudade

Vivi, desde então, o dilema entre o prazer de chupar balas Soft e o risco de bater as botas, padecendo de uma morte terrível

Por O Dia

Luiz Antonio Simas%3A A matraca da saudadeDivulgação

Rio - Um dia desses lembrei-me da ocasião, eu era meninote, em que uma amiga da minha avó presenteou-me com balas Soft de variados sabores. Quando fui abrir — contentíssimo — a primeira bala, minha tia Lita discursou pausadamente:

— Essa é a bala que costuma matar os meninos engasgados. É uma morte horrível; a pessoa não consegue respirar. Ontem mesmo morreu um garoto da sua idade perto do meu trabalho. Morrem, em média, 20 crianças por minuto dessa maneira no Brasil. Sabe onde essa bala foi inventada? União Soviética. Os comunistas nunca gostaram de crianças vivas.

A linha da pedagogia do terror era a predileta da minha tia. Ela gostava de dizer que, se não fosse obediente, eu seria sequestrado que nem o Carlinhos, um menino que desaparecera em Laranjeiras. Tentou proibir refrigerantes com o argumento de que dedos humanos eram frequentemente encontrados em garrafas. Para que eu estudasse mais e deixasse de soltar pipa, convenceu-me do inacreditável número de duzentas crianças degoladas por dia pelas linhas com cerol.

Para fortalecer meu sentimento religioso, a tia contava as histórias de Antoninho da Rocha Marmo e Odetinha, falava dos milagres da Taninha, a menina assassinada pela Fera da Penha, e me obrigava a cantar a música de ‘Marcelino, Pão e Vinho’ (um filme chatíssimo, diga-se).

Quando a tia, com esse currículo, falou das balas assassinas, foi o suficiente para que eu tivesse uma certeza: morreria engasgado. Vivi, desde então, o dilema entre o prazer de chupar balas Soft e o risco de bater as botas, padecendo de uma morte terrível.

As balas, mesmo podendo me matar, formaram os sabores afetivos da minha infância, ao lado do quebra-queixo, do guaraná Convenção, dos sacolés de uva e do bolo paraquedas (vendido em forminha de papel). Entram nesse time a banana amassada com farinha láctea, misturada com geleia de mocotó Inbasa, e o biscoito de fubá de padaria, que a rapaziada chamava de cavaca.

Havia, por outro lado, os sabores não tão agradáveis. Tomei muito Calcigenol e Biotônico Fontoura para crescer e ficar forte. Quando ameaçava vomitar os remédios, meu avô me estimulava:

— Deixa de frescura; o Elixir Nogueira e a Emulsão Scott eram muito piores. O Biotônico e o Calcigenol servem até como molhos de macarrão, de tão bons.

Todas essas recordações, medos, prazeres e aromas da infância bordam ainda minhas formas de ver o mundo. Vez por outra sou capaz até de ouvir a matraca do vendedor de quebra-queixo e as queixas da minha tia; sons amorosos do passado que mora irremediavelmente em mim.

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