Por thiago.antunes

Rio - Nunca houve na história do Rio de Janeiro madrugada mais maluca que a de 2 de agosto de 1958, quando a cidade ainda vivia o clima de euforia gerado pela conquista da Copa do Mundo disputada pouco antes na Suécia. Nas primeiras horas do dia, o carioca deixou de sonhar com as diabruras de Didi, Garrincha e Pelé e acordou apavorado com as explosões ocorridas no Depósito Central de Armamento e Munição do Exército, em Deodoro.

Luiz Antonio Simas%3A O bombardeio em DeodoroReprodução

Para que os amigos tenham ideia do tamanho do estrago, o complexo de Deodoro, o maior da América Latina, era formado por dez paióis e 60 depósitos de armamento bélico, com uma quantidade de armas e munições suficientes para mandar o Rio de Janeiro pelos ares. Foi quase isso o que ocorreu.

Aconteceu de tudo no que parecia ser o fim do mundo ao vivo e a cores. O depósito de petardos explodiu, milhares de granadas foram lançadas ao ar, um incêndio matou os animais da Granja do Exército e balas de fuzil triscaram os céus cariocas durante algumas horas.

Os apavorados moradores da região abandonaram suas casas às pressas, bairros vizinhos viraram réplicas de vilarejos bombardeados por artilharia pesada e o barulho das explosões foi ouvido até mesmo em áreas da Zona Sul. O sinistro foi tão espantoso que prédios chegaram a rachar em Vila Isabel, no Grajaú e na Tijuca.

Sepulturas foram arrasadas no cemitério de Inhaúma e restos mortais dos defuntos apareceram boiando na Praia de Ramos. Senhoras e senhoritas desmaiavam (há quem afirme que aquela madrugada concentrou o maior número de chiliques femininos simultâneos da história contemporânea) e até os mais valentes machões suburbanos, daqueles que palitavam os dentes com punhal, tiveram seus tremeliques. Mortes por ataques cardíacos foram registradas em meio a crises nervosas.

Um amigo do meu avô, que à época morava no conjunto residencial da Fundação da Casa Popular e fora pracinha na Segunda Guerra Mundial, garantiu que, perto do que aconteceu no paiol de Deodoro, a maioria das batalhas do confronto entre nazistas e aliados tinha a dramaticidade juvenil de um passeio de pedalinho em Paquetá. Passou o resto da vida pronunciando a mesma frase: — Deodoro dá de dez em Stalingrado; talvez se compare a Hiroshima e ao Dia D.

Entre mortos e feridos, enfim, salvaram-se quase todos, exceto os bichos da granja e os cardíacos que foram para o beleléu. A explosão do paiol de Deodoro, inesquecível para qualquer carioca que testemunhou aquela madrugada distante, permanece como o evento mais barulhento de uma cidade naturalmente explosiva.

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