Por tabata.uchoa
O futebol é uma forma de expressão%2C de se relacionar do brasileiroDivulgação

Rio - Numa mesa-redonda sobre o Brasil nas Copas, dentro da série ‘Futebol É Arte’, realizada na semana passada no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o radialista Eraldo Leite, perguntado sobre as manifestações que certamente acontecerão durante a Copa do Mundo que se aproxima, contou uma história curiosa. Ele lembrou que, recentemente, encontrou um jornalista alemão, já no país para fazer matérias especiais sobre o evento, e este disse, a respeito da possibilidade de passeatas, que ele sentia no seu próprio povo um pingo de inveja dos brasileiros neste quesito, que os alemães, de uma forma geral, se ressentem de não ter aproveitado as atenções do planeta, em 2006, para pleitear melhorias, para mostrar que nem tudo andava às mil maravilhas por lá. Eraldo se posicionou a favor das manifestações, desde que de forma ordeira, sem quebra-quebra.

Mesmo tendo o seu brilhante trabalho prejudicado em determinados momentos — ele lembrou que, em Brasília, na Copa das Confederações, precisou entrar em um ônibus da Fifa para furar um bloqueio de milhares de pessoas —, Eraldo se mostrou um profissional e também um cidadão. Os outros integrantes da mesa, José Carlos Araújo e os jornalistas Sergio Cabral e Sergio Pugliese, além do mediador Pedro Paulo Malta, também expressaram opiniões parecidas.

Penso igual. Óbvio que não quero ver minha cidade, meu bairro, minha rua depredada. Mas não concordo com os apelos do meu ídolo máximo, Zico, nem de Pelé, para que façamos, nós, os brasileiros, uma trégua durante a Copa. Me soa como um varrer a poeira para baixo do tapete porque a visita está chegando. Mesmo sendo essa visita a Dona Fifa... Não sinto vergonha de ver as pessoas nas ruas reivindicando mais investimentos em saúde e educação. Não acho feio professores e outras categorias exporem suas mazelas em praça pública.

Feio é tapar os olhos para realidade. Quem deveria sentir vergonha são os políticos e empresários que se locupletam da miséria e da ignorância alheia. Miséria e ignorância estas alimentadas, quase que como condição sine qua non, para a sobrevivência e permanência dos mesmos no poder.

Desde a primeira Copa do Mundo que tenho lembrança, a da Argentina, em 1978, conto o meu tempo, a minha passagem por aqui, em capítulos de quatro anos. Isso, minha vida é dividida em quadriênios que separam um Mundial do outro, tamanha a minha paixão pelo futebol. Tenho, é claro, uma visão para além do jogo, para além das quatro linhas. O futebol é uma forma de expressão, de se relacionar do brasileiro. Alguns dos nossos melhores escritores e compositores falaram do tema. De Drummond a Paulo Mendes Campos, de Wilson Batista a Chico Buarque.

Mas, na hora que a bola rola, sou mesmo é o torcedor visceral, apaixonado, que discute com o juiz, mesmo estando ele dentro da telinha, que xinga e vibra. E a Copa do Mundo é a exacerbação dessa paixão, desse torcer sem fim, cegamente. É quando as rivalidades locais de apequenam, o rame-rame cotidiano é deixado de lado para torcermos por um só time. Isso é muito bacana. Um jogo de Copa do Mundo é um jogo de Copa do Mundo. Até quem não entende nada vai estudar o que é o tal do impedimento.

Mas esse sentimento de união de forças, de brasilidade, de camaradagem muitas vezes vem travestido, de forma oportunista, de um ufanismo deslavado, de um “Brasil ame-o ou deixe-o” demodê, como se tudo se resumisse a um jogo. Mas, de alguma forma, as pessoas estão cansadas só de circo. No balanço de perdas e danos, no tabuleiro do Brasil de hoje, o discurso prepotente de Felipão e os maus bofes de Jérôme Valcke estão muito distantes dos anseios do povo brasileiro. Talvez por isso, o grito dos excluídos de pão, de saúde, de educação e, porque não, dos estádios terá que ser ouvido, queiram ou não, na Copa do país do futebol.

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