Por daniela.lima

Rio - Eu tinha uns vinte e tantos anos quando conheci Jards Anet da Silva, da Selva, o Macalé da selva de pedra que já tinha virado o Jardim Botânico, assim como o Rio de Janeiro de uma forma geral. Não me ligava ainda, como deveria, em sua musicalidade genial, em suas parcerias fantásticas com Waly Salomão, Capinam, Glauber Rocha e outros. Não tinha a noção de tudo o que ele já tinha vivido ou representava. Viajava em canções como ‘Vapor Barato’, ‘Let’s Play That’, ‘Mal Secreto’, mas admirava mesmo era aquele cara que passava pela Rua Maria Angélica e, ao ver o Pavão, um morador de rua, figura folclórica do bairro, deitado na calçada, enrolava uma nota de, sei lá, R$ 2, e deixava sutilmente em suas mãos. Pavão dormia feliz, mesmo na sarjeta, porque sabia que, por algum milagre, acordava com um dinheirinho do pão ou da cachaça.

João Pimentel%3A Ocupação MacaléDivulgação


Ali não era o performático Macalé, mas o admirável Jards, tão fora de série quanto o artista. Certo dia, não lembro como, alguém nos apresentou e, depois de alguns devaneios, marcamos uma aula de violão. No dia seguinte, uma sexta-feira, às 10h, eu estava lá, na hora marcada, com o instrumento e minha ressaca. Toquei o interfone por intermináveis 20 minutos. O porteiro, já conhecendo seu morador mais famoso, disse: “Pode subir sem tocar, ele está em casa.”

Estava, mas não estava. Toquei campainha algumas vezes mais e, quando já tinha desistido, resignado, rumo ao elevador, a porta se abriu. De cuecas e meias coloridas, Macao, um tanto contrariado, pega o violão e bate a porta na minha cara: “Volte amanhã.”

O nosso, quer dizer, o meu projeto de aulas acabou no dia seguinte, com um bilhete deixado juntamente com meu instrumento, na portaria. “Troque estas cordas velhas, passe um pano no seu violão. Que músico você quer ser?”

Bem, se não tive aulas com Macao, ao menos firmamos uma amizade das mais sinceras e divertidas. Fiz com meu parceiro Marco Abujamra um documentário, ‘Um Morcego na Porta Principal’, premiado no Festival do Rio, há uns cinco anos. Mais adiante, ele foi meu fotobiografado na coleção ‘Álbum de Retratos’, uma ideia de Moacyr Luz. Um dia, segundo ele, Macalé, farei sua biografia “autorizada”.

No sábado passado, em São Paulo, fui à abertura da ‘Ocupação Macalé’, no Itaú Cultural, e fiquei contente, muito contente. Não posso fazer comparações entre minha cidade, o Rio de Janeiro, e São Paulo, pelo simples fato de não conhecer quase nada da capital paulista. Mas em alguns dias na cidade é possível notar um abismo de opções de entretenimento, de casas noturnas, de exposições. Mais que isso, de propostas consistentes como esta série de ocupações criadas pelo centro cultural que hoje abriga Macalé.

O artista que propõe incluir a palavra — e o sentimento — amor na bandeira do Brasil ali é respeitado como um grande cidadão. No caminho proposto, que inclui uma ótima passagem secreta e indiscreta, estão espalhadas cartas de Helio Oiticica, Caetano Veloso e do próprio Macalé; músicas da criatura e de seus criadores; Batman e Homem­Aranha; Carlos Zéfiro e King Kong; Waly Salomão e Moreira da Silva.

Entrar nesse mundo fantástico, muito bem denominado Macalândia, é repartir brasilidade, inteligência, criatividade, inventividade. Mas também é coexistir com o melhor de Jards Macalé, que é o não personagem, o artista na forma crua e o ser humano direto, sem amarras.

Em vez de nos atermos a rivalidades bairristas, mesquinhas, datadas, deveríamos nos espelhar, cariocas e paulistanos, no que há de melhor no outro. E São Paulo sabe tratar melhor a cultura, nossos artistas, seus equipamentos culturais e seus parques, que também são espaços artísticos. Se sequer entendemos Macalé, talvez demoremos um pouquinho mais para compreendermos São Paulo.

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