Por karilayn.areias
Luis Pimentel%3A Observador de ruaDivulgação

Rio - TERNURA
A família curtia o outono, tranquila, na esteira ao lado da Cobal do Humaitá.
A mãe tirava um cochilo, a menina penteava com os dedos os cabelos da boneca, a mocinha estirava com as mãos umas peças de roupa.
A mãe acordou e ficou um tempo enorme contemplando as filhas, com delicada admiração.
Meus olhos de observador de rua nunca viram tanta ternura num olhar.

COMPREENSÃO
A bolsa treme com o barulhinho do celular e a moça, ao meu lado no Metrô, revira tudo até encontrá­-lo.
Aciona o botãozinho e começa a ronronar:
— Sei. Compreendo. Está bem. Compreendo, sim. Não faz mal. Tudo bem, deixa pra lá. Entendo, entendo. Fica pra outro dia. Tchau. Um beijo.
Desliga e, enquanto guarda o telefone no fundo da bolsa, murmura entre dentes:
— Cachorro...

OS BURRINHOS
Feirinha nordestina. Acocorado a um canto, o velho feirante negocia sua arte: lindos burrinhos de barro que fabricava durante a semana e levava para a exposição semanal. Artista famoso e apaixonado por cultura popular passava pela cidade, em turnê, quando, pela manhã, foi dar um passeio na feira e se encantou com o trabalho do artesão:
— Que lindos! Quanto custa, meu velho?
— Cinco reais cada.
O freguês contou a mercadoria: dezessete burrinhos.
— Embrulhe­os para mim. Vou levar todos. Presentear meus amigos.
— Como assim, todos?! – perguntou o velho.
— Todos. Dezessete burrinhos. Vou pagar os oitenta e cinco reais.
— Todos, nem pensar. Posso lhe vender uns sete ou oito, no máximo.
Estranhou. Argumentou. Achou sem pé nem cabeça a decisão do velho e pediu explicações. Ele deu:
— Meu amigo, são nove horas da manhã! Se lhe vendo esses burrinhos todos, vou fazer o que o resto do dia nessa feira?

SORRISOS
Na recepção do hospital, em Copacabana, duas menininhas — entre seis e sete anos — em tratamento contra o câncer.
Estão sentadas lado a lado. Uma está inteiramente careca, a outra ainda tem uns fiozinhos.
A que já não os possui alisa a cabeça da outra, dedos delicados entre os fiapos, misto de admiração e ternura.
Elas sorriem.
Aquelas menininhas sorriem.

FOGO
Ajoelhada sobre os calcanhares, apoiada nas juntas dos dedos magros, cotovelos rotos, a pequena vendedora de doces cochila sobre os sonhos.
A pausa é incerta, o trabalho insano, a vigília — eterna vigília — aumenta o cansaço.
A menina sabe que nuvens pesadas desabam de repente, que o fogo propaga, os sinais vermelhos são todos acesos ao mesmo tempo.
E os pombos da rua gritam: “Corre, miúda, que já te viram.”


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