João Pimentel: 'Tio, ainda tem corneta?'

A quantidade de besteira que as pessoas falam é impressionante. Mas até isso é bacana

Por O Dia

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Rio - É claro que bateu aquela ansiedade. Meu amigo Marcinho ligou dois dias antes, perguntando se eu tinha o telefone da Fifa, para ver se os caciques da entidade podiam antecipar a estreia do Brasil e a abertura da Copa. Acho que o telefone estava ocupado. A solução foi esperar.

Mas tínhamos muita coisa para fazer, muito trabalho. Conseguir a figurinha 607 do Guilherme, fazer a vaquinha do churrasco, antes disso achar a churrasqueira, testar a televisão nova de cinquenta e tantas polegadas. Ufa, fazer Copa cansa.

Eu, particularmente, tinha me comprometido com as crianças da minha rua a comprar essas cornetas insuportáveis, essa espécie de espuma carnavalesca com som de elefante abatido. Custavam R$ 12 no Centro, R$ 10 no Largo do Machado, mas a solução caseira da esquina da Rua General Glicério, em Laranjeiras, me surpreendeu. A grande custava R$ 6. Imaginei uma orquestra no inferno e fui comprando uma de cada tipo.

As crianças da vizinhança da Rua Cardoso Junior, seja em Cosme e Damião, seja para pedir figurinha ou para ganhar qualquer outra coisa, sempre pensam em mim. Devo ter cara de Papai Noel. Então, elas foram se chegando, cada uma escolhendo a sua. Davam uma soprada e partiam com a recomendação de não tocarem durante a partida e, de preferência, que emitissem sons apenas na própria casa entre meia-noite e cinco da manhã. A orientação, é claro, foi ignorada, o que me fez pensar que o meu ouvido é penico.

O churrasqueiro Robson me lembra alguns amigos que têm as mil e uma utilidades daquele anúncio de palha de aço, que salvou muito jogo de Copa do Mundo grudada na antena. Ele organiza a vaquinha, compra a carne, leva criança à escola, completa álbum de figurinha para os outros. Enfim, cruza e cabeceia. E ele foi quem teve a ideia de um bolão e estabeleceu as regras.

Botamos os nomes dos dez jogadores, fora o do goleiro Júlio César, num saco. Sorteamos, e fui o último a tirar. Oba, o Fred! Tinha mais gente, e fizeram outro. Eu, guloso, entrei e tirei outro tricolor, Marcelo, hoje no Real Madrid. Jogador ofensivo, muita chance.

A bola rolou, não sem antes eu perguntar para Mara, minha namorada: “Quem é aquele jogador?”, apontando para o Thiago Silva. “Luiz Fabiano!”, respondeu, demonstrando todo o seu conhecimento futebolístico.
“Tio, ainda tem corneta?”. “Só essa aqui, pequena, mas barulhenta”, respondi. “Essa eu não quero, não.”

O difícil na Copa é achar alguém por perto que entenda minimamente de futebol. A quantidade de besteira que as pessoas falam é impressionante. Mas até isso é bacana. O Hino, as pessoas de verde e amarelo, o espírito de união, a alegria, as hordas de gringos.

Então, meus devaneios foram para o espaço com o gol. Contra. E do Marcelo. Em meio ao silêncio, não sei de qual lugar dentro de mim, eu disse: “Ganhei o bolão.”

Por alguns segundos me senti o Maradona do anúncio, o desagradável máximo. Só faltou alguém dizer: “Sabe nada, inocente.” Meu voto foi impugnado, eu, esculhambado, e ninguém concordou comigo. “Não foi gol do Brasil”, argumentaram. “Mas ele foi o primeiro brasileiro a fazer gol”, me defendi. “O Marcelo é tricolor, reclama no STJD que você ganha”, gritaram lá do fundo.

Vivendo o clima desta Copa, especialmente, eu fico tentando imaginar um bósnio soprando corneta. Ou um japonês fazendo churrasquinho na calçada. Será que na Suíça existe uma espécie de Rua Uruguaiana, onde as suas crianças de bochechas rosadas se encontram para trocar figurinhas? Sul-coreano faz bolão? Acho que não. Por isso, a melhor Copa do Mundo é aqui e agora.

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