Rio - Já vi coisas no Brasil da rebimboca da parafuseta. O fato de ser nascido e criado num terreiro de umbanda me fez achar que por aqui as coisas extraordinárias são perfeitamente normais. Cresci na encruzilhada das maravilhas. Vi um curupira incorporado numa dona; vi turista japonês virado no caboclo Sete Cachoeiras; vi Zezé Macumba imitar bode para amarrar time adversário na várzea; cruzei com presunto desovado pelo Mão Branca que ressuscitou e pediu uma cachaça; tive uma tia carola (a católica praticante da família) que deixou expresso em testamento que queria ser enterrada com um bonequinho de seu Tranca Rua.
Não me surpreendem, portanto, as maluquices extraordinárias que ocorreram na Copa do Mundo: índios pataxós cantaram parabéns para Klose; três pés de cana fizeram Neuer e Schweinsteiger cantarem o hino do Bahia; baianos foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano; um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.
Tem mais. Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o “bota aqui o seu pezinho”; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, tentou se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; Robben quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer Drogba.
Não parou aí: os mexicanos usaram táxis para ir ao treino em Santos; chilenos trouxeram terra de uma mina soterrada para estimular a seleção; os ingleses esqueceram um jogador trancado no hotel; um mineiro disse que ia envenenar a seleção argentina; hondurenhos resolveram acampar em um cemitério e quase mataram um coveiro de susto.
No meio de tudo isso houve jogos fabulosos, uma invasão de argentinos que já se configura como o maior deslocamento de uma massa humana em tempos de paz e um Brasil x Alemanha digno dos melhores momentos do realismo fantástico. A seleção brasileira comportou-se como um time de colegiais enfrentando uma equipe profissional, tomando gols que em peladas no Aterro já seriam motivo de zombaria para todo sempre.
A Copa do Mundo termina e a vida segue. O futebol, afinal de contas, é apenas um jogo. Se fosse para mim mais do que isso — como questão de vida ou morte, projeção de convicções políticas ou campo de exacerbação de delírios nacionalistas — eu certamente não seria tão apaixonado pelas irrelevâncias da bola. É o desimportante, em sua dimensão mais humana, que me importa.