Marco do teatro nacional, ‘Ópera do Malandro’ ganha remontagem

'A peça fala do Rio na década de 40, sobre a ligação dos contraventores com a polícia, a prostituição.... Coisas que acontecem até hoje', compara o diretor João Falcão

Por O Dia

Rio - Se você for à Lapa, não ache que perdeu a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais. É que, de amanhã até sexta-feira, ela troca o bairro mais boêmio do Rio pelo palco do Theatro Municipal, antes de se fixar em Copacabana, para a temporada que começa no Theatro Net Rio a partir do dia 8 de agosto. Com direção de João Falcão, a ‘Ópera do Malandro’ — uma das obras mais emblemáticas de Chico Buarque — faz sua pré-estreia na Cinelândia e mostra que, quase 40 anos após sua montagem original, seus temas continuam atuais.

Elenco da versão de a ‘Ópera do Malandro’%2C dirigida por João Falcão%2C com Larissa Luz%2C a única mulher da companhia%2C no centro da fotoMárcio Mercante / Agência O Dia


“A peça fala do Rio na década de 40, sobre a ligação dos contraventores com a polícia, a prostituição, a insatisfação do povo... Coisas que acontecem até hoje”, compara Falcão. “São tantas músicas que viraram clássicos e ficaram populares, como ‘Geni e o Zepelim’, ‘Pedaço de Mim’, ‘A Volta do Malandro’... E tem muita gente que nem sabe que foram feitas especialmente para a peça”, comenta o diretor, que também acrescentou outras canções de Chico ao repertório original, como ‘O Último Blues’, feita anos depois do repertório de origem para o filme homônimo à peça, de Ruy Guerra, em 1986.

A história foi escrita por Chico Buarque em 1978 e inspirada na ‘Ópera do Mendigo’ (1974), de John Gay, e na ‘Ópera dos Três Vinténs’ (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Nela, o contrabandista Max Overseas, agora interpretado por Moyseis Marques, se casa em segredo com Teresinha (Fabio Enriquez), filha de um dono de bordéis e cabarés da Lapa. Além da figura do malandro e anti-herói, representada pelo protagonista, há personagens como a travesti Geni (Eduardo Rios), que, apesar de ‘ser feita para apanhar e boa de cuspir’, salva uma cidade ao aceitar se deitar com um comandante forasteiro. Além de reunir todos os tipos de contraventores como agiotas, policiais corruptos e empresários sem escrúpulos.

Quando Falcão decidiu tocar o projeto da remontagem, percebeu que era possível fazer alusões a várias notícias que lemos atualmente nos jornais, como as manifestações de rua que vêm se repetindo desde junho do ano passado. “Quase todo o segundo ato se passa em um protesto, que vai crescendo e envolvendo o povo”, associa o diretor. “Procurei manter o máximo possível da montagem de 78. Mudei poucas coisas, como factuais da época”, completa ele.

Uma das novidades e marcas da versão de Falcão é que só há uma mulher no elenco, que curiosamente interpreta um homem. Larissa Luz é João Alegre, uma espécie de narrador da trama. Todos os outros atores se revezam entre personagens masculinos e femininos. “Acho interessante essa coisa da discussão de gênero. Resolvemos mexer um pouco com isso, que já é abordado na peça através da Geni. Mas também foi algo circunstancial, pois nossa companhia é quase toda formada só por homens”, explica o diretor, que continua trabalhando com o mesmo grupo de seu último musical, ‘Gonzagão — A Lenda’.

O único novato na trupe é o ator e cantor Moyseis Marques, que aos 35 fará o seu primeiro trabalho do gênero. Familiarizado com a boemia, ele não precisou de nenhum laboratório para encarnar o protagonista Max. “Estou acostumado com a Lapa, já morei e canto por lá há muitos anos”, conta o estreante.

Justamente pela familiaridade com o lugar, ele destaca que o reduto dos malandros não é mais o mesmo.
“A Lapa retratada na ‘Ópera’ é um bairro diferente do que vemos hoje, que abriga a classe média e que cobra entradas caras. Há um tempo atrás, ninguém queria morar lá. Era um lugar meio sinistro, tinha rato, mendigos, travestis e uns poucos botequins baratos”, diz Marques. Para ele, o que não muda é uma certa malandragem, que já nasce junto com todo brasileiro, principalmente aos cariocas.

“Os malandros estão em toda parte. Malandragem para mim é esperteza, inteligência. É você trazer humor para a vida para enfrentar as agruras e obrigações de forma mais leve”, define ele. “O Max é um sujeito meio inconsequente. É um vilão, mas as pessoas acabam gostando dele”, analisa.

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