Por karilayn.areias
Sylvia veste um dos figurinos mais icônicos de Marlene%3A o smokingFernando Souza / Agência O Dia

Rio - ‘Ó gloriosa Santa Sheyla, padroeira dos artistas, das travas e das perdidas nos palcos da vida. Livrai-nos do mico, do branco, da queda do salto, da peruca solta, da maquiagem borrada e da bilheteria fraca”. É com essa oração que a atriz Sylvia Bandeira pede proteção aos deuses, antes de subir ao palco para dar vida à atriz alemã Marlene Dietrich. “Santa Sheyla tem me protegido. Desde que reestreamos, ‘Marlene Dietrich — As Pernas do Século’ tem sido um sucesso”, entrega ela.

Em cartaz de quinta a domingo, no Teatro Maison de France, no Centro, o espetáculo que mostra o período de ouro da carreira de Marlene Dietrich até sua morte solitária, aos 90 anos, tem como atrativo os mais de 25 figurinos que são fiéis aos usados pela estrela. “A Marlene soube viver, ela não precisou da aceitação de ninguém. Foi a primeira a ter coragem de usar peças masculinas em público e beijou uma mulher na boca na frente de todos, ainda nos anos 1920”, explica Sylvia.

Figurinista do espetáculo, Marcelo Marques conta que bordar o vestido de gala à mão ou escolher os tecidos de cada peça não foi sacrifício algum. “Sou apaixonado pela Marlene. Na primeira vez que coloquei um pôster dela na parede do meu quarto, tinha apenas 17 anos. Ela representava o espírito das mulheres daquela década. Era um momento em que elas se libertavam do julgamento dos homens. Muitos chamavam a Marlene de mulher-fera, outros até de prostituta por conta de seus vários relacionamentos. Eu nunca falo que ela inspirou a moda. Ao ser a primeira mulher a usar calças publicamente, a Marlene influenciou o comportamento feminino”, explica. Sylvia vai além: “Uma vez, uma repórter perguntou à filha dela, Maria Riva, se Marlene era bissexual, pois ela se relacionava com homens e mulheres com a mesma intensidade. A Maria respondeu que não poderia definir isso. Explicou que a mãe era apenas uma mulher disposta a viver, experimentar a vida sem nenhum tipo de limitação.”

Mais próxima de sua personagem do que muitos imaginam, Sylvia afirma que, assim como a alemã, nunca teve medo de seguir seus desejos. “Eu quebrei o script que escreveram para a minha vida. Achavam que a menina loura, linda e filha de diplomata se casaria, teria filhos e cuidaria do lar. Mas eu fui à luta. Realizei o sonho de ser atriz e, no meio do caminho, fui obrigada a ouvir palavras preconceituosas do tipo: ‘Nossa, mas ela tem dinheiro. Ela quer provar o quê?’ Eu não queria provar nada, só trilhar o meu caminho”, diz.

Aos 64 anos e em plena forma física, Sylvia repudia o pensamento que diz que a mulher tem um prazo de validade, mas reconhece que envelhecer é difícil: “Há um peso muito grande em relação à beleza. Isso é muito complicado, porque a atriz não pode fazer plástica. Ela perde a expressão. Só que lidar com a passagem do tempo é horrível. Não foi à toa que a Marlene se trancou em casa e morreu sozinha. Ela não suportou ver sua beleza e o seu glamour indo embora.”

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