Por daniela.lima

Rio - A direção do documentário ‘Esse Viver Ninguém Me Tira’, que conta a história de Aracy Guimarães Rosa, caiu no colo de Caco Ciocler. Quando chamou o ator, a produtora Cinegroup já havia iniciado o processo de pesquisa e roteiro sobre a vida da mulher do escritor João Guimarães Rosa, que salvou centenas de judeus da morte durante o Nazismo. E foi paixão à primeira leitura do ator pela história da mulher que, quando morou na Alemanha e foi secretária do consulado brasileiro, planejou fugas, ajudou a falsificar vistos, desviou parte da comida do consulado para levar aos esconderijos e facilitou a emissão de passaportes para judeus. 

Caco Ciocler estreia no Festival de Gramado como diretorDivulgação


E, para Ciocler, que tem ascendência judaica, o heroísmo de Aracy foi além. “Descobri que ela salvou a vida do avô de um dos meus melhores amigos de infância. Ou seja, descobri que esse amigo, e tudo que vivemos juntos, só existiu graças a Aracy. Foi o que transformou a curiosidade e o fascínio por ela em profunda gratidão”, revela o diretor, que lança ‘Esse Viver Ninguém Me Tira’ no próximo dia 15, no Festival de Gramado e, em setembro, no Festival do Rio.

Do documentário, Ciocler é também o narrador. “Eu explicito a minha busca por Aracy e, portanto, falo em primeira pessoa”, acrescenta, ressaltando que não usaram qualquer imagem de arquivo. “A gente faz um exercício de reconstituição imagética. Usamos fotos, algumas foram cedidas pela família, outras encontramos no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), onde está guardado o arquivo pessoal de dona Aracy”, conta o diretor, que, junto com a equipe, percorreu Hamburgo e Berlim, na Alemanha; Jerusalém, em Israel; Sidney, na Austrália; além de Rio, São Paulo e Cordisburgo, no interior de Minas, onde nasceu Guimarães Rosa,em busca de imagens, lugares e pessoas que trouxessem à tona a história de Aracy, que viveu 102 anos e deixou mais de 80 deles registrados em diários, cartas e cartões postais.

O diretor disse que foi preciso fazer um recorte no material que tinham em mãos, caso contrário não fechariam o longa em uma hora e dez minutos. “Deixamos de fora, basicamente, suas intimidades e nos concentramos naquilo que a torna única. A tiramos da sombra. Fala-se muito pouco nela”, lamenta o diretor, que não descarta a possibilidade de a história virar um filme de ficção. “A ideia de fazer um documentário não foi minha, mas confesso que dirigir uma ficção sobre Aracy tem povoado meus pensamentos”, revela.

E, coincidentemente, a história da mulher que salvou centenas de judeus da morte é retomada num momento delicado, e novamente violento, envolvendo o povo judeu: o conflito entre Israel e o Hamas (organização palestina). “Na verdade, o documentário não tem nada a ver com o conflito atual, mas acho que essa coincidência do lançamento agora acabou agregando ao filme uma responsabilidade importantíssima e bem-vinda de propagar o legado humanitário de Aracy. É disso que precisamos urgentemente. Tirar o foco do ódio e começar a olhar, a vibrar e a disseminar amor, compaixão e a admiração pelas diferenças.”

Na opinião de Ciocler, o primeiro passo para a paz é desconfiar de tudo que a TV e os jornais mostram e acabar com o discurso hipócrita de respeito às diferenças. “É preciso nos informarmos bastante sobre qualquer conflito no mundo antes de nos transformarmos em agentes propagadores do ódio. A paz é um exercício. O ódio tem a ver com a ignorância e o medo. O amor se aprende, assim como o ódio se aprende. Se eu tivesse algum tipo de poder mágico, acabaria com esse discurso hipócrita de que temos que respeitar as diferenças. Enquanto tivermos que respeitar as diferenças nossas distâncias serão sempre mantidas. Quando a humanidade aprender a gostar das diferenças e achá-las um grande barato, aí, sim, daremos um passo significativo em direção à paz.” 

DITADURA DO 1 MILHÃO

Caco Ciocler criticou o momento que ele chama de ‘ditadura do um milhão de espectadores’. “Acho o cenário atual triste mas, ao mesmo tempo, promissor. O triste é estarmos vivendo essa ditadura do um milhão de espectadores. Arte não tem, e nunca teve, nada a ver com mercado. Vejo uma lógica cada vez mais escravizada pela ditadura dos resultados numéricos. Por outro lado, tem gente conseguindo construir caminhos alternativos que furem esse raciocínio. A internet é um exemplo disso, ela vai ditar uma nova lógica.”

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