Por karilayn.areias
Ir à feira significa%2C além de encher fruteiras e geladeiras%2C receber lições de como conviver%2C pechincharAgência O Dia

Rio - Outro dia Moacyr Luz escreveu neste jornal sobre a importância das feiras livres e a influência delas em seu imaginário. Um texto lindo. Entro na onda porque também gosto da coisa, já tive lugar em pé cativo na barraquinha de um baiano que servia acarajé e batidinha de umbu na feira da Praça Cruz Vermelha. Até já frequentei esse ambiente como feirante, porque na infância defendia o dinheiro das matinês no Cinema Íris vendendo palha de aço, cigarro a varejo e fósforos na feira livre de Feira de Santana (como se vê, de feiras eu entendo).

Conheci muitas no Rio (inclusive a citada pelo Moa, da Rua Garibaldi) e algumas deixaram saudades. Em Copacabana temos várias. A melhor sempre foi a da Domingos Ferreira, que agora está centrada na Praça Serzedelo Corrêa. Ipanema tem uma ótima, na Praça General Osório, e a da Gávea (Praça Santos Dumont) é nota 10. Passeei muito ali, segurando a sacola de compras com uma mão e empurrando o carrinho do filho pequeno com a outra. No Humaitá, tenho feira na porta de casa, na Rua Maria Eugênia.

Fazer feira sempre foi um grande programa, sobretudo se for na Glória. Carioca ou morador do Rio que nunca foi à feira de domingo no bairro da Glória, bem ali no miolo da Augusto Severo (onde às noites travestis vendem outros produtos), não sabe o que está perdendo.

Ir à feira significa, além de encher fruteiras e geladeiras, receber lições de como conviver, pechinchar, trocar experiências e armazenar diálogos como o que ouvi diante do caminhão de peixes do Severino, no Estácio. Depois de cheirar, futucar e meter o dedo no olho do namorado-batata, a madame perguntou, distraída:

— É fresco?

— Que é isso, freguesa?! É só o jeitão dele. Meu peixe é espada!

Ou a compradora reclamando inocentemente dos preços altos, diante da barraca de legumes, e o feirante espirituoso desfiando o rosário de maledicências:

— Tá caro tudo, senhora! Tacaro penino, tacaro cenoura, tacaro nabo, tacaro mandioca...

Na barraca do baiano — um cearense nascido na Paraíba, criado em Pernambuco e vendedor de produtos do Pará na feira —, na Glória, os jornalistas Arthur Rocha e Pedro Teixeira beliscavam carne-de-sol e mordiscavam cachaça Marimbondo quando o xepeiro se aproximou, pisando macio, voz suave:

— Posso tomar um aperitivo na conta dos senhores?

— Claro, companheiro. Tem várias pingas aqui. Pode escolher.

— Desculpem, mas não bebo pinga. Teria aí uma vodca, um vinho, um uísque, algo assim?

Feira livre é coisa séria. E ainda tem esse detalhe: é livre.

Você pode gostar