Rio - Amado por uns, odiado por outros. Paulo Coelho sempre gerou sentimentos controversos — ao mesmo tempo que é execrado pela crítica, seus livros são best-sellers. “Eu mesmo tinha um pouco desse preconceito”, revela Júlio Andrade, que estreia hoje como o escritor em ‘Não Pare na Pista — A Melhor História de Paulo Coelho’. No filme, ele e seu irmão Ravel Andrade dividem o papel em diferentes fases da vida do autor e mergulham em uma história carregada de misticismo, sexo, drogas e rock ’n’ roll.
Tamanha exposição nunca foi problema para o escritor. Ele já assumiu em entrevistas que teve envolvimento com drogas, se relacionou com homens e participou de seitas ocultistas. Aliás, são os próprios atores que o interpretam que tratam a questão de biografias não autorizadas com mais pudor do que o biografado. “Acho que existe um limite sobre o que você expõe da sua vida pessoal e essa é a discussão”, opina Júlio, apoiado por seu irmão.
Questionado se esse limite não transformaria em chapa-branca os filmes biográfico, Ravel se mostra pensativo, mas não arrisca resposta. Já Júlio, que interpretou Gonzaguinha e Raul Seixas em outros trabalhos, limita-se a dizer: “É muito delicado falar sobre isso, então, prefiro me abster. Ainda mais porque acho que sou o ator que mais fez biografias.”
Se o peso de representar um personagem real é grande e até intimidador, o fato de Paulo Coelho ser a única pessoa ainda viva que Júlio já encarnou aumenta a responsabilidade. “Encontrei com ele em sua casa, em Genebra, na Suíça, onde fiquei três dias. Foi legal, mas estranho, porque fazer alguém vivo é muito complicado”, analisa.
Durante o encontro, nada de histórias, confissões ou desabafos do escritor. “Não conversamos muito sobre a sua vida, pois ele não quis entrar nessa discussão para não se envolver ou interferir no roteiro”, conta Júlio, que se baseou em uma frase que ouviu do escritor para compor o papel. “O Paulo me disse: ‘Eu sou o que as pessoas acham que eu sou.’ Isso deu muita liberdade para mim e para meu irmão fazermos o personagem que a gente imaginava”.
Dessa liberdade, surge na tela o estreante Ravel Andrade como o jovem Paulo — um garoto problemático que, após tentar suicídio, é internado em um hospício. “Vim do teatro e já tinha feito alguns trabalhos universitários. Então, o maior desafio acabou sendo entender como é fazer cinema e como funciona a equipe no set”, avalia o ator de 22 anos, 15 a menos que o irmão veterano.
A fase adulta do escritor, que tem 66 anos, ficou a cargo de Júlio. Envelhecer com o personagem foi o maior desafio do ator. “Para fazer o Paulo hoje, ficava seis horas na maquiagem e usava uma prótese de 5kg no rosto. Isso me levou à exaustão. Mas ficou bacana. Muitos acham que são duas pessoas diferentes em cena”.
O envolvimento com as drogas, sexo, misticismo e a parceria com Raul Seixas são alguns dos trechos da trama, que é baseada na persistência de Paulo em ser um escritor. “As pessoas que têm preconceito em relação ao Paulo, às vezes, nunca nem leram um livro dele”, diz Júlio, que assume só ter lido duas obras — ‘O Diário de um Mago’ e ‘Verônica Decide Morrer’. “Com o filme, descobrimos um cara que não teve a vida fácil. Ele passou pelo hospício, tomou choque elétrico, ficou preso na ditadura... Acho que vai aproximar o povo da história do Paulo”, conclui Júlio.
IRMÃO MAIS NOVO
A escolha de Ravel Andrade em ‘Não Pare na Pista — A Melhor História de Paulo Coelho’ teve um padrinho especial. Durante uma conversa entre o diretor Daniel Augusto, a roteirista Carolina Kotscho e Júlio Andrade, o ator sugeriu o irmão mais novo para o papel do Paulo quando jovem.
“Ele nos colocou em uma saia justa. Como dizer não de cara? Então, marcamos um encontro. A sorte é que, na hora do teste, tivemos certeza de que o papel era do Ravel”, conta a roteirista, que diz ter achado nele semelhança física e carga dramática parecidas à de Júlio.