João Pimentel: E agora, José?

Por fim o bolo, os parabéns, as velinhas, as fotos de família, a Ponte Rio-Niterói de volta, e a sensação de que me livrei de uma boa

Por O Dia

João Pimentel%3A E agora%2C José%3F Nei Lima / Agência O Dia

Rio - Tudo começou com um telefonema.
— Oi, compadre, tudo bem? É o seguinte. Seu afilhado faz aniversário daqui a duas semanas, e vou fazer uma festinha com o tema de ‘A Bela e a Fera’. Ele assistiu a uma peça e só fala nisso. Liguei para uns atores, mas fica muito caro. Será que se eu arrumar uma fantasia você poderia entreter um pouco as crianças? Ele iria adorar.

Eu, que caminhava no Aterro, comecei a suar mais ainda, imaginando a situação.
— Minha comadre, eu nem sei a história direito, de mais a mais eu sou tímido — ponderei.
— Que nada, você interpreta suas marchinhas, canta para uma multidão nos blocos, no Carnaval — ela argumentou.

— Mas aí é diferente. No Carnaval, eu estou com meus amigos, cantando uma música minha, bebo uma cerveja e pronto.
— Então, você bebe uma cerveja e se fantasia — disse Ana, este é o nome dela.
Imaginei a cena de uma fera pinguça urrando, as crianças chorando, os pais esbravejando, e a festa se transformando em um espetáculo bem distante do mundo encantado da Disney.
— Ana, você quer ver toda uma geração de crianças traumatizada? Eu ajudo a patrocinar os atores, e não se fala mais nisso.

Ela topou, e eu me livrei de uma fria.
Sábado passado, depois de uma hora e quinze minutos, eu cheguei à Rua Rui Barbosa, em Niterói, onde mora o José, meu querido compadre, e o outro José, meu afilhado amado.
Cachorro-quente, minipizza, minicheeseburger, minijoelho (no caso de Niterói, é mini-italiano), refrigerante, cerveja, cabeça de Barbie, roda de Transformer, pecinhas de jogos irreconhecíveis, doces roubados, choro, xixi nas calças, joelho ralado.... Na maravilhosa Babel infantil não faltava nada. Faltava sim!
Uma animadora reuniu a criançada para a grande surpresa da tarde-noite: a valsa do casal de atores contratados.

— Quem quer surpresa bate as mãos! — incentivava a recreadora.
— Quem quer surpresa bate os pés no chão!
As crianças, enlouquecidas, excitadíssimas, gritavam, choravam, esperneavam. Mas a gravação providenciada pelo meu compadre não tocava de jeito nenhum. Trocaram de cabo, pegaram o som da churrasqueira, tentaram baixar a valsa na internet, e, numa reação de desespero, sugeri:
— E se botarmos a música do Pokemon?
Quase me bateram.

Depois de meia-hora, a maquiagem da Bela havia derretido, a Fera suava em bicas, a animadora já tinha dado dez voltas no quintal e cantado todas as músicas possíveis e imagináveis. Já os pais não sabiam o que fazer com as crianças.

Mas, sabe-se lá como, a música começou a tocar. O casal dançou a valsa, José ganhou uma flor e se apaixonou pela Bela, que tinha a saia puxada por uma pequena Mulher Maravilha.
A Fera virou bichinho de estimação ao ter de enfrentar a fúria do Hominho de Ferro, e a festa seguiu o rumo esperado.

Por fim o bolo, os parabéns, as velinhas, as fotos de família, a Ponte Rio-Niterói de volta, e a sensação de que me livrei de uma boa.

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