Luis Pimentel: Cenas de cinema

A câmera se aproxima novamente do par de tênis. Surrados, bem surrados. Número trinta e nove

Por O Dia

Luis Pimentel%3A Cenas de cinemaDivulgação

1. A câmera se aproxima do par de tênis abandonado na calçada. Surrados, bem surrados. Número trinta e nove. Um pé tem a lingueta para dentro; outro tem o cadarço ainda meio amarrado.
Descalçados às pressas.

A câmera se afasta. Depois se aproxima do corpo: bermuda cáqui, camisa regata, pulseirinha de aço num punho e relógio de camelô no outro. As mãos abertas e os pés sem meias. O buraco preto ainda sangra, bem no meio da testa.

A câmera agora gruda no transeunte, única testemunha:
— Não, não levou dinheiro. Acho que não tinha um puto sequer. Só queria o tênis. Mas acabou se assustando com as buzinas.

A câmera se aproxima novamente do par de tênis. Surrados, bem surrados. Número trinta e nove.
2. O homem entra no ônibus pela porta dianteira. Cumprimenta o motorista, que não responde, e estira a mão para o trocador, passando­lhe o dinheiro que trazia enrolado entre os dedos.
A câmera em seu encalço.

O homem gira a roleta com dificuldade, pois o coletivo está bem congestionado, e vai avançando lentamente, dá licença, obrigado, dá licença, obrigado, tentando chegar ao final do corredor — onde espera encontrar um canto que comporte seus dois pés.

A câmera atenta.
O homem que parece estar fugindo de alguém ou de alguma coisa respira, aliviado, quando consegue ajeitar as pernas, rente ao encosto de um banco, levanta os braços em direção à barra elevada de apoio em busca da segurança que se espatifa em um segundo. Exatamente quando reconhece o passageiro que está sentado à frente, a arma na direção do seu peito:

— Quem diria! Fugiu tanto para cair no meu laço.
O primeiro disparo foi na câmera.
3. Uma voz de comando pediu silêncio no set e informou que não ia tolerar comentários maledicentes.
O homem pede à mulher que erga um pouco mais a bunda, pois do jeito que está ela foge do foco da câmera. Depois sugere que diminua o ritmo, porque frenético do jeito que está fica parecendo uma dança de nuvens, artístico demais para o momento.

— Pornô moderno não dá tesão em ninguém — ele diz.
Ela pergunta se não está na hora de mudar de posição, mostrar outras partes dos corpos, outro viés de penetração. Ele, que além de ator é produtor e diretor da fita, argumenta que o público dá preferência a volumes e que jamais se cansa de uma cena com bundão na tela.

Ela diz que está cansada, com cãibras na coxa esquerda, dormência no pé direito e com vergonha da insistência com a qual exibe tão explicitamente as celulites. Levanta­se, vai ao banheiro, toma banho, troca de roupa e sai batendo a porta. A câmera não pegou, mas da escada ainda se escutava ele gritando:
— E o contrato?! Você assinou um contrato!

Esta cena final fez o público dar ótimas gargalhadas.

Últimas de Diversão