Por daniela.lima
Ricardo Cota%3A Glauber marcado para morrerDivulgação

Rio - Recentes documentos encontrados pela Comissão Estadual da Verdade reanimaram o fantasma da perseguição artística sob a ditadura militar. O alvo agora é o cinema e seus profissionais. Análise do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), datada de 21 de setembro de 1971, alerta para uma entrevista de Glauber Rocha para a revista ‘Time Out’ que, de acordo com o relatório, seria “um dos mais violentos ataques feitos ao Brasil em qualquer órgão da imprensa britânica”. Além da análise de nítido apontamento persecutório, chama a atenção no relatório um registro escrito à mão, no alto da primeira folha, com o assustador e premonitório diagnóstico: “morto”.

Glauber, muito pelo contrário, em setembro de 1971, estava bem vivo. Desde 1964, despontara como expoente do Cinema Novo com a estreia do avassalador ‘Deus e o Diabo na Terra Sol’. O filme abriu espaço para o cineasta ao concorrer à Palma de Ouro no Festival Internacional de Cannes. Glauber seria nomeado novamente em 1967 pelo manifesto político ‘Terra em Transe’, até finalmente, em 1969 ,receber a Palma de Ouro de Melhor Diretor por ‘O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro’, concorrendo, entre outros, com Costa-Gavras, Sidney Lumet, Marco Ferreri, Louis Malle e Éric Rohmer.

A exposição mundial foi decisiva para que o diretor não apenas afirmasse sua convicção em uma concepção estética original, mas principalmente para denunciar os desmandos da recente ditadura. Em 1968, quando o AI-5 foi instaurado, Glauber já era, portanto, um porta-voz que levava suas queixas e sua câmera para outros cantos do mundo. No relatório da Aeronáutica, percebe-se a preocupação com seus filmes realizados fora do Brasil, como ‘O Leão de Sete Cabeças’ e ‘Cabeças Cortadas’. É provável que Glauber tenha sido avisado do risco, pois no mesmo 1971 saiu do Brasil para um exílio nada voluntário.

Glauber não foi assassinado pela ditadura, mas está claro que foi o regime que começou a degola que o levaria à morte em 1982, aos 42 anos. Muitos são os relatos de amigos e familiares de sua profunda tristeza longe do Brasil, da preocupação com a preservação das cópias de seus filmes e da dor de ver interrompido um trabalho de reinvenção do país que tanto amava. Resistiu filmando e deixando pelo menos uma sequência antológica, em ‘Claro’, de 1975, filmado na Itália, antes de seu estridente retorno ao país. Nela, o diretor ouve marchas de Carnaval e canta ao telefone “o Rio amanheceu cantando, toda a cidade amanheceu em flor”. Um lamento próprio, amargo-irônico, do artista acuado pela intolerância. Que triunfe a verdade.

AÇÃO!

• Halder Gomes e Edmilson Filho, diretor e ator do fenômeno nordestino de bilheteria ‘Cine Holliúdi’, voltam a trabalhar juntos em ‘O Shaolin do Sertão’, cujas filmagens iniciam em 2015. A dupla tem dez indicações ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, cuja cerimônia de premiação ocorre no próximo dia 26, no Theatro Municipal.

Você pode gostar