Por daniela.lima
João Pimentel%3A ApelidosNei Lima / Agência O Dia

Rio - Quando aprendi a falar e a compreender a linguagem humana eu já sabia meu nome: Janjão. Depois fui conhecendo os meus amigos: Dudu, Fifi, Ciço, Nicodemus, Tavinho. Não havia na infância muitos nomes e nenhum sobrenome. Todos meus amigos tinham apelidos carinhosos ou variações no diminutivo.

Quando chegou a adolescência, a coisa mudou um pouco de figura. Quem tinha apelido marcante se deu bem, quem não o tinha, provavelmente foi vitimado pela implacável maldade humana. Nos tempos de colégio, impossível esquecer o Só Fala, um menino que só falava... Pois é! Mais tarde, no colégio Dom Bosco, em Manaus, eu, o Brinco, fui expulso juntamente com toda a minha turma: Marola, Pirubão e Pirubinha, que só andavam juntos, Fuleiro, Cachorrão, Boneca e outros. As meninas, normalmente, eram aliviadas ou ganhavam apelidos internos de acordo com seus predicados.

Desta época, lembro-me bem de um colega, o CDF clássico, queridinho da professora, que era detestado pela turma porque entregava os alunos atrasados e bagunceiros. Logo ele ganhou o apelido de Gão. E era “vem cá, Gão” pra lá, “vem cá, Gão” pra cá até o menino enlouquecer e a turma inteira ser suspensa... Não imaginávamos, nem de longe, que estávamos praticando um covarde bullying.

De Manaus, vem também a lembrança de um bebum, desses de anedota, que sempre que se estatelava no chão acusava alguma alma penada: “Não empurra!”, reclamava. E Não Empurra, evidente, era a sua alcunha.

Na minha turma de pelada do clube Caiçaras, amigos de infância, como todos se sacaneavam, e se sacaneiam até hoje, não há o bullying, ou há um bullying coletivo. Ninguém se incomoda de ser chamado de Chupeta, Garça, Cabeça, Mumu, Jordy, Chuck, Espuma, Mr. Bean, Menino Berinjela, Brave ou Rasta Man. Já fui o centroavante gordinho Beijoca, aí a barba cresceu e, como gostava de cantar, virei Pavarotti. Sem problemas.

Em uma ida à praia, na barraca do Joel, ali pelo Posto Nove, por exemplo, eu encontro o Gorda, o Sargento Tainha, o Careca, o Bizarro, o Urso Polar, que prefere ser chamado de Estopa, o Perninha de Galinha e outros.

No mundo do samba, os apelidos são incorporados normalmente aos nomes e funcionam quase como uma identidade. O Nelson é Sargento. O Walter era o Alfaiate. O Wilson Moreira é o Alicate. O Paulo era da Portela. Mas um compositor dos blocos cariocas, figura conhecida, amigo das antigas, implicou com o apelido famoso: Pirulito. Certo dia, o artista apareceu na quadra do Clube Condomínio, onde o Simpatia É Quase Amor ensaiava nos anos 90, e distribuiu a letra do seu samba concorrente com a nova assinatura:

Ricardo de Moraes (ex-Pirulito). E mais, respondia com uma rima quando alguém o chamava pela alcunha: “Meu nome é Ricardo de Moraes, e o pirulito vai atrás.” Não deu outra, na hora de anunciar o samba, o locutor não perdeu a piada: “Com vocês o samba número quatro, de Ex-Pirulito”.
O apelido só pega de verdade quando a vítima acusa o golpe.

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