Por daniela.lima

Rio - Tapas na cara, socos, gritos, sangue, cuspes, cabeça mergulhada em balde d’água, rosto asfixiado por um saco plástico. Num quarto pequeno, um homem amarrado sofre com a humilhação e a injustiça. E isso não se passa na época da ditadura militar. O cenário de dor e os elementos de tortura não ficaram no passado. 

Confira a galeria com cenas do documentário

Brunno Rodrigues acredita que o documentário vai levantar discussõesMárcio Mercante / Agência O Dia


No documentário ‘O Estopim’, do diretor Rodrigo Mac Niven, a cena de terror vivida pelo assistente de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido após abordagem policial em julho do ano passado, será mostrada como uma forma de discutir a política de segurança em comunidades do Rio desde a implantação das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora). O longa será apresentado no Festival do Rio — que começa dia 24 e segue até o dia 8 de outubro —, competindo na categoria de Melhor Documentário, e traz depoimentos de familiares e amigos de Amarildo, o delegado Orlando Zaccone (responsável pelo caso na época) e juízes.

A parte da ficção fica nas mãos do ator Brunno Rodrigues, 37 anos, que dá vida a Amarildo não só nos momentos de angústia como também nos de lazer e de labuta. “O que posso falar é que foi uma tortura extenuante. Foram quase seis horas de filmagens, apanhei mesmo. Dentro de toda a proteção que a produção me deu, fui elevado ao meu limite físico e emocional, mas tudo com muita segurança”, revela Brunno, que, assim como toda a equipe, trabalhou sem cachê.

“Senti a dor de uma pessoa torturada. Sei que na vida real é muito pior, mas, mesmo nas filmagens, foi agonizante. Chorei de tristeza, revolta e raiva”, acrescenta o ator, que chegou a ter fortes dores no pescoço por conta das cenas em que era obrigado a ficar com a cabeça dentro de um balde cheio de água: “Sei que as pessoas que passam por isso podem ter o tímpano estourado, sangramento pelos orifícios, defecar, urinar e ficar com lesão cervical muito séria. Eu, que mergulhava a cabeça com toda técnica e cuidado, fiquei com uma dor absurda no pescoço, imagina fazendo isso de forma brutal. A dor me fez não parar de pensar na situação do Amarildo.”

Para Brunno, o importante é conseguir chamar a atenção do público para temas como preconceito, violência, segurança pública e política. “Como cidadão negro, artista, sempre tomei dura da polícia, levei muito tapa na cara. Acredito que a violência não pode ser aceita e compreendida como uma forma de relação entre o Estado e a população.”

Depois de passar alguns dias na Rocinha com a viúva de Amarildo, Elizabeth Gomes, filhos e amigos do assistente de pedreiro, Brunno ficou bem à vontade para ceder seu rosto a um personagem que gera tanta discussão. Carlos Eduardo da Silva (Duda), líder comunitário da Rocinha e melhor amigo de Amarildo, foi quem deu as principais instruções para o ator. “Duda foi essencial para que o filme acontecesse. Foi ele quem me contou como Amarildo assobiava, como ele andava. Ele era pescador, muita gente não sabia disso”, diz Brunno, que festeja o fato de o filme ser lançado em ano eleitoral. “Isso ajuda a discutir a situação atual do Brasil e trazer à tona o que de fato aconteceu com Amarildo.”

Amarildo: vítima do ‘Tropa de Elite’

Duda, 37 anos, amigo de Amarildo e líder comunitário da Rocinha, acredita que o filme possa trazer mudanças: “Os depoimentos da própria polícia comprovam que teve tortura, morte e ocultação de cadáver.” Para ele, a situação das comunidades piorou depois da chegada das UPPs. Ele também associa o comportamento truculento dos policiais ao filme ‘Tropa de Elite’, de José Padilha.

“O Amarildo acabou sendo uma vítima do ‘Tropa de Elite’, porque a sociedade viu o filme como a melhor coisa mundo, o Bope e a polícia entrando ali, arrebentando e matando. A sociedade entendeu de forma errada. O comportamento da polícia de hoje, que tem treinamento de apenas seis meses, é baseado nisso. Muitos dos métodos usados nas comunidades pelos policiais são embasados no ‘Tropa’. Vários PMs, por exemplo, falam frases que foram ditas no longa. Temos uma realidade em que a polícia se coloca como o braço opressor e o governo não enxerga.”

À Queima Roupa’ estreia no Rio

Cenas fortes de chacinas que marcaram a história do Rio, como a de Vigário Geral (1993), depoimentos reais sobre a violência policial e vários pedidos por justiça. Esse é o foco do documentário ‘À Queima Roupa’, selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio, com estreia no dia 25 de setembro, às 17h, no Lagoon. O projeto, realizado pela Kinofilmes, mostra a violência e a corrupção da polícia carioca nos últimos 20 anos. “Todas as chacinas ocorridas nos últimos anos têm a participação da polícia”, afirma, em depoimento na obra, o advogado João Tancredo.

Theresa Jessouroun, diretora do documentário, acredita que ‘À Queima Roupa’ servirá para uma reflexão sobre os atos praticados por quem deveria proteger a população. “É assustador pensar que, só no ano passado, a polícia matou 415 pessoas, isso é mais de uma pessoa por dia. Por que matar? Por que não levar para a cadeia? A discussão é muito maior. O fato que é mais grave é que esses atos são classificados como auto de resistência, um mecanismo legal que autoriza os agentes a utilizarem os meios necessários para atuar contra pessoas que resistam à prisão em flagrante ou determinada por ordem judicial. Aí, a polícia não responde por esses crimes. Não temos policiais bem treinados e, para piorar, eles não sabem nada sobre direitos humanos.”

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