Ricardo Cota: O desamparo do Brasil jovem em 'De Menor'

‘De Menor’ propõe uma reflexão desapaixonada do desamparo da juventude brasileira

Por daniela.lima

Rio - A protagonista Helena (Rita Batata) é “de maior”. No entanto, seu sentimento de orfandade não é inferior ao do irmão Caio (Giovanni Gallo), este sim, “de menor”. Ambos padecem do sofrimento recente da perda dos pais e, embora transitem em mundos opostos, dividem um sentimento fraterno de intensa solidariedade, captado nos instantes de intimidade do lar e de convívio afetuoso sob o sol das praias do litoral paulista. 

Caio (Giovanni Gallo) no momento em que é detidoDivulgação


Helena é uma defensora pública de jovens infratores que vive a pedregosa rotina de audiências em que a desigualdade do Brasil jovem expõe suas vísceras. São casos de furtos, agressões, gravidezes precoces e muito desamparo familiar. Acostumada a ver seus recursos negados, Helena conhece de perto a rotina das colônias penais e a precária possibilidade de ressocialização oferecida por essas instituições. Seu estado é de impotência.

Até se deparar com a delinquência juvenil do próprio irmão. O conflito, de contornos trágicos, irá acirrar as crises de consciência da jovem advogada. O temor de ver Caio recolhido fragiliza seus argumentos éticos que chegam a admitir prerrogativas classistas e raciais na desesperada defesa, todas refutadas pelo consciente juiz interpretado por Caco Ciocler.

‘De Menor’ é um filme que ocorre no vazio das ações. A dramaturgia evita cenas de violência, maus-tratos nas colônias penais e até mesmo o desfecho dos julgamentos. O filme transita pela claustrofobia do apartamento dos irmãos, o austero ambiente dos tribunais, os inóspitos joelhos de porco da periferia e os sufocantes centros de recuperação de adolescentes. A praia é o respiro.

A cineasta estreante Caru Alves de Souza expõe notável maturidade artística, sem receio de assumir o DNA da mãe, a também cineasta, e produtora executiva do longa, Tata Amaral. ‘De Menor’ não esconde as referências claustrofóbicas e minimalistas a ‘Um Céu de Estrelas’ e ‘Através da Janela’, ambos dirigidos por Tata. Dialoga ainda com outras fontes, como o realismo social dos irmãos Dardenne de ‘O Garoto da Bicicleta’ e ‘Dois Dias, Uma Noite’, este inédito no Brasil. Sem o proselitismo das ideias prontas, ‘De Menor’ propõe uma reflexão desapaixonada do desamparo da juventude brasileira sem distinção de classe. Humanista, mas sem triunfalismo.

AÇÃO!
* Dia 15, segunda, às 21h, estreia no Canal Brasil, ‘Música Serve Para Isso — Uma História dos Mulheres Negras’, de Bel Bechara e Sandro Serpa, que registra a trajetória da banda dos anos 80 Os Mulheres Negras, formada por Maurício Pereira e André Abujamra.
Os depoimentos enfatizam a múltipla influência de estilos, que a dupla intitulava “techno-pobre”. Para quem conheceu, bate nostalgia; para quem nunca ouviu, é obrigatório. O filme reprisa domingo, dia 21, às 22h, também no Canal Brasil.

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