Ricardo Cota: Cinco dicas para o Festival do Rio

O resultado é um filme surpreendente em que a matéria- prima é o tempo. E a engenhosidade da produção, claro

Por O Dia

Rio - 1) O SAL DA TERRA: Vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri da Mostra Un Certain Regard, em Cannes, trata-se de uma imersão na obra do fotógrafo Sebastião Salgado. Codirigido por Wim Wenders e Juliano Salgado, filho de Sebastião, o filme concentra-se basicamente na leitura do fotógrafo de seu próprio trabalho. Wenders segue a trajetória cronológica dos mais conhecidos trabalhos de Salgado e consegue arrancar uma autocrítica corajosa. O fotógrafo que correu mundo acompanhando fome, miséria e desigualdade econômica, confessa sua descrença na humanidade, só reabilitada após a realização do projeto Gênesis, um reencontro com o que para ele é a última esperança da terra: a natureza. 

Cena do filme ‘Party Girl’ dirigido pela jovem cineasta Marie AmachoukeliDivulgação


2) ‘BOYHOOD’: Richard Linklater, diretor da trilogia ‘Antes do Amanhecer’, ‘Antes do Pôr do Sol’ e ‘Antes da Meia-Noite’, realiza aqui seu mais ambicioso projeto cinematográfico. Ao longo de 12 anos, o cineasta reuniu uma vez por ano o mesmo grupo de atores para dar continuidade a um roteiro sobre o cotidiano agridoce de uma disfuncional família norte-americana. O resultado é um filme surpreendente em que a matéria-prima é o tempo. E a engenhosidade da produção, claro. Urso de Prata no Festival de Berlim.

3) ‘PARTY GIRL’: Filme de estreia da jovem cineasta Marie Amachoukeli, venceu o prêmio Camera D’Or em Cannes, dedicado especialmente a realizadores de primeira viagem. O enfoque realista segue a decadente rotina de Angélique, uma prostituta de 60 anos que decide aceitar o pedido de um cliente regular em casamento. A vida nova irá permitir uma reaproximação com a família, mas ao mesmo tempo irá confrontá-la com a nostalgia dos tempos de cabaré. O atrativo especial é que a ficção se inspira na vida real da atriz Angélique Litzenburger, que interpreta seu próprio papel, assim como os filhos.

4) ‘IDA’: Com 27 prêmios na bagagem, ‘Ida’ é uma das joias do Festival do Rio e merece atenção especial. Na Polônia dos anos 60, uma freira às vésperas de fazer seus votos descobre um passado negro na família envolvendo o nazismo. Dirigido por Pawel Pawlikowski, ‘Ida’ destaca-se pela interpretação intimista dos atores e pela fotografia opressiva em preto e branco, que remete à tradição do melhor cinema polonês da década de 60, como Madre Joana dos Anjos, de Jerzy Kawalerowicz. Um filme forte, seco e reflexivo.

5) ‘MAP TO THE STARS’: O título refere-se aos guias de Los Angeles que vendem tours pelas casas das celebridades. Aqui o roteiro, escrito a quatro mãos por David Cronenberg e Bruce Wagner, é devastador com os candidatos à fama, celebridades instantâneas, atrizes decadentes e terapeutas de araque. Drogas lícitas e ilícitas, crises de depressão, arrivismo, grana, competição e inconsequência são os pontos turísticos do mapa para as estrelas cronenberguiano. Há ainda espaço para alucinações fantasmagóricas que projetam os personagens para um ambiente em que o real e o imaginário se confundem a todo instante. Ninguém parece viver no presente. Ao expor com humor negro as vísceras hollywoodianas, Cronenberg provoca, revira e incendeia.

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