Por clarissa.sardenberg

Rio - As pessoas das fotos desta matéria não são famosas. Mesmo assim, encontrá-las foi uma tarefa difícil, quase como falar com uma celebridade: era necessário que fosse em um lugar específico, um cinema, em um horário apertado, entre uma sessão e outra do Festival do Rio. É assim, concorrida, a rotina de um cinéfilo durante o maior festival de cinema da América Latina. Afinal, a cidade recebe 350 filmes até o dia 8 de outubro e, para os fãs mais entusiasmados da sétima arte, o evento representa uma verdadeira maratona. São capazes até mesmo de faltar ao trabalho e matar aula para conseguir assistir ao máximo de títulos. E tem que ter muita preparação para eleger o que será assistido entre tantas opções.

“Eu leio a sinopse de todos os filmes, procuro o trailer, vejo o que mais me atrai, faço uma pré-seleção de cem títulos e vou eliminando, até chegar em 30. Mas, durante o Festival, os amigos vão dando dicas e a lista aumenta”, conta Bel Bonotto, publicitária, de 26 anos, que está agora em sua quinta edição do evento, mas pode ser considerada uma novata perto de veteranos como Giuliano Rocha, de 39 anos, figurinha carimbada no Festival há 13 anos. “Esse ano, verei 55 filmes. O grande risco é que, como não sabemos muito sobre o filme, podemos assistir a muita porcaria. Aposto na mostra Expectativa, que reúne novos nomes do cinema, e na Midnight, que tem filmes bastante alternativos e grotescos”, afirma ele, que é revisor e não trabalha nessa época do ano para poder aproveitar.

As bilheterias do Estação Rio estão sempre movimentadasDivulgação

Os personagens inesquecíveis não ficam só nas telonas. A plateia também guarda muitas figuras tradicionais, que aparecem especialmente durante o Festival. É o caso de Hsu Chien, de 46 anos, que figura na lista dos cinéfilos mais famosos da cidade. “Frequento o Festival do Rio desde 1986, quando ainda se chamava ‘FestRio’. Lembro que em 1987, o filme mais polêmico foi ‘A Lei do Desejo’, do então desconhecido Pedro Almodóvar. Foi controverso porque tinha como personagens travestis e gays, que, mais tarde, veríamos que são tipos bem comuns ao cineasta espanhol”, conta Hsu, que, em 2010, foi homenageado pelo Festival. “Colocaram uma equipe de making of me acompanhando de sala em sala. Usaram meu cronograma de filmes para fazer um vídeo para a noite de encerramento”, lembra ele, que, de tanto amar cinema, acabou fazendo disso sua profissão: largou a faculdade de Medicina, cursou Cinema e hoje em dia dirige o seriado ‘Sexo e as Negas’, na Globo.

Já para outros frequentadores, o evento virou uma missão secreta, digna de um enredo de aventura. É o caso de um gerente de logística, de 40 anos, que preferiu não revelar o nome. “Estou meio que fugido do trabalho para poder vir”, entrega ele, que está em sua 23ª edição e pretende assistir a 67 longas e 14 curtas esse ano. Morador de Madureira, ele passa por uma verdadeira peregrinação para chegar aos locais das sessões, espalhados principalmente pela Zona Sul, e assiste a uma média de cinco filmes por dia. “Só para me programar e criar a grade de filmes, levo cerca de 40 horas, lendo sinopses e agendando cinemas próximos uns dos outros”, conta. Caio Costa, estudante de cinema de 23 anos, também se desdobra para não perder nenhuma cena. “Tem professor que abona as faltas no Festival, mas quando não aliviam, mato aula mesmo”, afirma ele.

Mas, afinal, o que o Festival tem de tão especial? “Como a maioria dos filmes jamais será exibida comercialmente, fica a oportunidade única de assistir àquele que você tanto quer ver. A atmosfera é especial porque você pode a qualquer momento esbarrar com alguma celebridade: cineastas, atores, produtores brasileiros e estrangeiros. É gostoso viver esse glamour”, afirma Hsu. Por hora, a matéria precisa terminar, porque a sessão vai começar.

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