Por daniela.lima
João Pimentel%3A Besouro verdeDivulgação

Rio - Chego na minha análise, na sexta-feira passada, fagueiro, com bons pensamentos, um dia antes da minha festa de aniversário. Papo vai, papo vem, e ele — sim é ele — me pergunta: “Mas e depois de você encontrar esse povo todo, os seus amigos de todas as fases da vida, no dia seguinte você não se sente sozinho?” A resposta veio imediata, sem pensar: “Ué, mas no fundo não somos todos sozinhos? Não vivemos, no nosso dia a dia, presos em nossas consciências, no embate contra a solidão que é viver?” E lá vou eu de volta para a rua, para o carro, para casa, irremediavelmente sozinho.

Chego em casa apertado, louco para ir ao banheiro, e me deparo com um besouro verde. Não o super-herói, mas um inseto. Aquilo sim que era solidão. Ele se digladiava contra o basculante, tentando alcançar o lado de fora da casa, tentando voltar para o seu lar, que era qualquer lugar menos ali, entre o vaso e teto.

Minha reação imediata foi fechar a porta do banheiro e ir ao bar da esquina fazer o meu xixi. Mas rapidamente caí na real: “Pô, eu tenho uma casa na roça, durmo com a janela aberta, convivo com tantos tipos de insetos pacíficos... O que me faz ser tão urbano a ponto de trancar o pobre coleóptero em um banheiro da Rua Cardoso Junior?”

Voltei, olhei para ele — ou seria ela? —, que certamente me ignorou, e parti para a arriscada aventura de tentar devolver-lhe a liberdade. Com uma vassoura na mão e armado de uma coragem sobre-humana, adentrei o recinto, pronunciei palavras de ordem em besourês e, num ato de valentia, abri a sua passagem para a liberdade. Escapei por pouco de um voo rasante, mas ele, numa manobra genial, descreveu um arco e escapou de mim, o inimigo cruel, o vilão da história, e conquistou a liberdade.

Mais tarde, com a ajuda internética de minha colega de trabalho, Márcia Benzinho, descubro que a ordem dos coleópteros é a que tem o maior número de espécimes de todos os seres vivos, cerca de 350 mil. Ou seja, até o besouro verde é menos solitário que a espécie humana.

Não, não vivo um momento solitário, daqueles que pegamos o telefone e descobrimos que não temos ninguém para dividir nossos pensamentos, nossos conflitos, nossa angústias. Não estou na fase de pensar que nenhuma mão amiga vai abrir o basculante da vida para que eu possa achar minha liberdade. Não estou, definitivamente, preso entre o vaso e o teto da humanidade.
Acho que, no fundo, preciso mesmo é ficar mais perto do mato que do divã, que preciso me juntar, por um tempo, aos meus amigos coleópteros, lá na roça de Lumiar.

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