Por paloma.savedra

Rio - A realidade é o fio condutor de ‘Na Quebrada’, em cartaz no Festival do Rio. O filme não só é inspirado em jovens da periferia de São Paulo, como é interpretado por eles e por detentos da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos.

Com exibição hoje, no Cinépolis Lagoon, e no dia 7, no Estação Ipanema, o longa de Fernando Grostein Andrade retrata histórias de jovens que cresceram ao lado do crime, mas escolheram seguir um caminho diferente. Um deles é o próprio codiretor, Paulo Eduardo, que, na trama, é encarnado por Felipe Simas, único ator do elenco criado longe das ‘quebradas’.

Os atores Jorge Dias e Felipe Simas contracenam em ‘Na Quebrada’Divulgação

Para não destoar do grupo, o ator carioca, no ar em ‘Malhação’, morou três meses em uma comunidade paulistana, mudou o sotaque e a forma de encarar a vida e a sociedade. “Percebi que não importa de onde você vem, ali éramos todos iguais. Vi também o lado de quem é preso. Hoje, percebo que a sociedade os trata como animais”, conta Simas, que foi apresentado à favela por Paulo Eduardo.

“Ver minha vida ser representada foi estranho e confuso ao mesmo tempo. Mas me vi muitas vezes no Felipe”, diz o codiretor, que, aos 15 anos, levou um tiro no peito ao presenciar uma briga de traficantes em um bar. Ao sair do hospital, começou a trabalhar em uma locadora de filmes e, anos depois, virou o personagem principal de ‘Na Quebrada’.

“Nessa época, decidi que queria fazer faculdade de cinema. Mas meu pai ganhava R$ 1 mil e a mensalidade custava R$ 1,5 mil — ou seja, impossível”, relembra Paulo Eduardo, que procurou o apoio de ONGs como o Instituto Criar, fundado pelo apresentador Luciano Huck — um dos produtores do longa e irmão de Fernando Grostein Andrade.

Aliás, foi no Instituto Criar que Fernando encontrou os outros personagens que inspiraram o roteiro de seu filme. “Descobri histórias inacreditáveis, como a da jovem filha de um casal de cegos que é a única que enxerga em casa”, lista ele, que também introduziu fatos contados por amigos a histórias de outros personagens, como a de Gerson (Jorge Dias), que nunca viu o pai fora da cadeia.

“Tenho um amigo que é filho de detento. Uma vez, ele falou para mim: ‘Você não sabe como é humilhante ter 8 anos de idade e ver sua mãe ser revistada nua’”, lembra o cineasta, que emenda: “Mostramos um lado muito pesado, sim. Mas, ao mesmo tempo que denunciamos problemas, também mostramos as revoluções e as soluções que estão sendo praticadas pelo pessoal que vive nas quebradas”, avalia ele.

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