Por karilayn.areias

Rio - Há pessoas que passam pela vida de forma tão especial que até na hora da partida parecem mandar um recado final, mesmo que involuntário. A morte de Hugo Carvana, à véspera da eleição presidencial, foi quase um último suspiro do seu personagem imortal, o malandro de ‘Vai Trabalhar, Vagabundo’. Como no samba de Chico Buarque, ‘Homenagem ao Malandro’, Hugo aparentou trocar as fichas de saco cheio da concorrência. Afinal, como dizem os versos da canção: “agora já não é normal, o que dá de malandro regular profissional, malandro com aparato de malandro oficial, malandro candidato a malandro federal, malandro com retrato na coluna social, malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.”

Hugo Carvana faleceu no último sábadoJoão Laet / Agência O Dia

Mas a concorrência que me perdoe, porque malandro como o criado por Hugo Carvana não teve igual. Ator de mais de 60 filmes, Carvana desempenhou personagens que passaram por diversas fases do cinema brasileiro. Seu jeito próprio de atuar, consagrado por uma naturalidade espontânea, sem traços de impostação, despertou o interesse dos grandes cineastas do Cinema Novo, que buscavam justamente uma comunicação mais direta, realista, popular, despida de um padrão consagrado pelo teatro burguês.

Para essa turma, Carvana serviu como luva. Trabalhou com Ruy Guerra, Glauber Rocha, Paulo César Sarraceni, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Arnaldo Jabor, antes de se tornar presença constante nas telas. Na televisão, caiu no gosto do grande público atuando em novelas de sucesso e fixando pelo menos um personagem inesquecível na pele do jornalista Waldomiro Pena, da série ‘Plantão de Polícia’. Era um tipo sob medida para o ator: urbano, ligado ao jornalismo ao gosto do povão, conquistador e boêmio.

No cinema, Carvana imortalizou o típico malandro carioca em ‘Vai Trabalhar, Vagabundo’, de 1973. Secundino Meirelles, o malandro, é um trambiqueiro carimbado, com passagem na prisão, que transita do subúrbio à Zona Sul entre golpes, paqueras e ‘birinights’. Sua moral é amoral e sua navalha são a lábia, o jeito extrovertido e a viração. Acompanhando as desventuras do protagonista, Carvana conseguiu tecer uma crônica do Rio dos anos 70 e consagrar um carioca universal.

Anos mais tarde, em 1982, realizaria seu longa mais pessoal, ‘Bar Esperança — o Último que Fecha’, uma comédia romântica salpicada de amargura em que o diretor fala da própria geração atropelada pela ditadura. O filme trata do verdadeiro sanatório geral de artistas e profissionais liberais que resistiram à caretice e à frescura dos anos de chumbo tanto na militância política quanto na esbórnia, no hedonismo boêmio e na luta desarmada. É o filme que melhor resume o ‘Carvana way of life’. Compartilhávamos afinidades eletivas cinematográficas e acima de tudo futebolísticas. Fará falta no cinema, na televisão e na torcida do nosso Fluminense.

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